Mercosul-UE traz oportunidade e risco ao setor agro
30-04-2026

Carlos Haushahn, CEO da Jacto, vê estímulo para a indústria local crescer — Foto: Ricardo Benichio/Globo Rural
Carlos Haushahn, CEO da Jacto, vê estímulo para a indústria local crescer — Foto: Ricardo Benichio/Globo Rural

Essa é a avaliação de empresas de máquinas e implementos que atuam no mercado nacional

Por Lauro Veiga Filho — São Paulo

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, em sua parte comercial, passa a vigorar a partir de 1 de maio, ainda que não integralmente. E, numa primeira avaliação, a indústria de máquinas e equipamentos agrícolas antecipa um aumento da concorrência no setor, com mais entrada de importações. Porém, algumas empresas percebam um misto entre riscos e oportunidades com o acordo.

“Se nós não melhorarmos o custo Brasil, no longo prazo a indústria nacional vai perder mercado”, analisa Pedro Estêvão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq).

De forma escalonada, os europeus deverão eliminar tarifas de importação atualmente impostas a 95% dos produtos exportados pelo Mercosul. O bloco sul-americano, por sua vez, vai zerar tarifas sobre 91% dos bens que importa da União Europeia.

O custo de capital é o principal componente que torna os produtos brasileiros em torno de 20% mais caros do que os da média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo Bastos.

“Muito se fala sobre a baixa produtividade da indústria, mas não é nosso operário que tem baixa produtividade, mas sim o maquinário que está à sua volta, que é muito antigo”, diz Bastos. Renovar o parque de máquinas, no entanto, exigirá que o país enfrente um problema estrutural gerado por juros médios acima de 20% ao ano.

O Acordo Interino de Comércio (ITA), que define a redução tarifária, estabelece prazos de até 15 anos para a implantação de toda a agenda de comércio entre os dois lados. “Temos esse tempo para melhorar o custo Brasil”, afirma. O desembarque de maquinário importado, de toda forma, não será automático.

Há “impeditivos”, na expressão escolhida por Bastos, que poderão retardar o aumento da concorrência estrangeira num setor já dominado por multinacionais. Em primeiro lugar, aponta ele, o Plano Safra em vigor exige conteúdo local nas máquinas agrícolas compradas com o crédito rural. “A máquina que virá pronta da Europa não terá financiamento”, observa.

Adicionalmente, lembra Bastos, produtos de maior valor agregado demandam redes de pós-venda com capacidade para atender todas as regiões do país. “Não é possível importar uma máquina, vender aqui dentro e não ter peças de reposição e nem quem a conserte. O fabricante europeu vai ter que se instalar aqui e montar sua rede de pós-venda, o que é possível, mas leva tempo”, acrescenta ele.

Por outro lado, avalia, ao abrir parte do mercado europeu a produtos agrícolas brasileiros, o acordo tende a favorecer as exportações de grãos e carnes. “Para nosso cliente é bom, na medida em que permite maior acesso ao mercado europeu, estimulando o aumento da área plantada aqui dentro e, portanto, o crescimento das vendas de máquinas”, avalia.

“Sempre vejo acordos como positivos. Quanto maior o bolo econômico do qual você participa, mais alternativas você vai ter”, diz Carlos Daniel Haushahn, CEO da Jacto. Ele avalia que há riscos envolvidos, especialmente para uma empresa de capital nacional, mas diz que a chegada de empresas europeias tende a elevar o nível tecnológico ofertado, estimulando a indústria local a crescer.

Linha de raciocínio semelhante é adotada pelo vice-presidente de vendas para o segmento agrícola da CNH para América Latina, Paulo Arabian. Para ele, a abertura comercial tende a ampliar oportunidades para ambos os blocos, favorecendo o acesso a novas tecnologias, o aumento da competitividade e maior integração produtiva.

A redução de barreiras comerciais deverá ser acompanhada pela maior entrada de tecnologias, componentes e sistemas de agricultura de precisão, afirma Cesar Roberto Guimarães de Oliveira, gerente de vendas e marketing da Agritech. “A tendência é de aumento das pressões sobre a indústria nacional para ganhar eficiência e ampliar a competitividade”, diz. A plena vigência do acordo, a seu ver, terá que combinar abertura de mercado, mais disputa comercial e necessidade de adequação às exigências técnicas e regulatórias do bloco europeu.

Lucas Zanetti, gerente de marketing de produto da Massey Ferguson, avalia que o acordo exigirá avanços em eficiência produtiva, sustentabilidade e rastreabilidade. “É um movimento positivo, que estimula inovação e fortalece a competitividade do agro brasileiro no cenário internacional”, afirma ele.

Fonte: Globo Rural