Não é etanol de milho versus etanol de cana; é etanol versus carbono
28-01-2026

Avanço das biorrefinarias de milho redefine a oferta de etanol no Brasil, reduz a volatilidade de preços e fortalece a estratégia brasileira de descarbonização

Por décadas, a produção de etanol no Brasil esteve diretamente associada à cana-de-açúcar. O lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, consolidou o país como referência mundial no uso de biocombustíveis, estruturando uma cadeia produtiva que se tornou pilar da matriz energética brasileira. Nos últimos anos, no entanto, um novo protagonista ganhou espaço e passou a alterar de forma estrutural o mercado: o etanol produzido à base de milho.

A partir de 2017, com a criação da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), o setor passou a ganhar maior organização institucional, atraindo investimentos em usinas dedicadas e em plantas flex, capazes de produzir etanol tanto de cana quanto de milho. Esse movimento acelerou a expansão da capacidade instalada e colocou o Brasil diante de uma nova configuração do seu mercado de biocombustíveis.

Segundo a DATAGRO, o país conta atualmente com 29 usinas dedicadas exclusivamente à produção de etanol de milho, com capacidade conjunta de fabricar 12,36 bilhões de litros por ano. Além disso, 18 unidades estão em construção e outros 20 projetos encontram-se em fase de desenvolvimento. Mantido esse ritmo, projeta a consultoria, a produção de etanol de milho deve alcançar volumes equivalentes aos do etanol de cana em menos de uma década, alterando profundamente o equilíbrio da oferta nacional.

Apesar desse avanço, o debate público ainda é marcado por dúvidas, comparações simplificadas e, muitas vezes, pela percepção de que os dois modelos estariam em disputa direta. Para Guilherme Nolasco, presidente da UNEM, e Mário Campos Filho, presidente da Bioenergia Brasil, essa leitura não reflete a realidade do setor.

“Embora a molécula de etanol produzida nas biorrefinarias seja idêntica, os ciclos de vida até a obtenção do produto final seguem rotas totalmente distintas. Transformar essas diferenças em complementaridade, com sinergia por meio da produção conjugada de etanol de cana-de-açúcar e etanol de milho, representa uma grande oportunidade”, afirma Nolasco.

Campos Filho reforça que, do ponto de vista técnico, não há qualquer distinção no combustível que chega ao consumidor. “Não há nenhum tipo de diferença entre os dois produtos. Independentemente da matéria-prima, é exatamente o mesmo etanol combustível, seja ele produzido a partir da cana ou do milho”, diz. 

Produção distinta, produto idêntico

Do ponto de vista químico, não há qualquer diferença entre o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, do milho ou de outras matérias-primas vegetais. Em todos os casos, o processo resulta na mesma molécula (C2H6O) utilizada como biocombustível. As diferenças, portanto, não estão no produto final, mas nos caminhos produtivos que levam até ele.

A cana-de-açúcar é uma cultura semiperene, que permite múltiplos cortes ao longo de vários anos antes da necessidade de replantio. Seu processamento exige rapidez: a matéria-prima deve ser moída em até 48 horas após a colheita, o que faz com que a produção de etanol de cana esteja concentrada no período da safra, entre abril e novembro.

Esse modelo produtivo, segundo o presidente da Bioenergia Brasil, caracteriza uma agroindústria mais verticalizada. “A cana normalmente está muito próxima da usina. O estoque está no campo, o que reduz custos logísticos e facilita o planejamento industrial”, explica.

O milho, por sua vez, é uma cultura anual e altamente armazenável. Após a colheita, concentrada principalmente na segunda safra, entre maio e setembro, o grão pode permanecer estocado por longos períodos sem perda significativa de qualidade. Isso permite que as biorrefinarias de milho operem de forma contínua ao longo de todo o ano, independentemente do calendário agrícola.

“A lógica é diferente. O milho é uma indústria que compra a matéria-prima do produtor rural, o que exige gestão eficiente de compra, estocagem e logística. O estoque da cana está no campo; o estoque do milho está no silo”, resume Campos Filho.

Essa diferença de sazonalidade é um dos principais fatores que explicam o impacto estrutural do etanol de milho sobre o mercado brasileiro.

Historicamente, o período de entressafra da cana, entre dezembro e março, sempre representou um desafio para o abastecimento de etanol no Brasil. A menor oferta nesse intervalo exigia a formação de estoques elevados durante a safra, pressionando custos financeiros e aumentando a volatilidade dos preços.

Com a expansão do etanol de milho, esse cenário começou a mudar de forma significativa. Segundo Nolasco, a produção contínua ao longo do ano trouxe ganhos claros para o mercado e para o consumidor.

“Quem ganhou foi o consumidor e o mercado. Tivemos uma redução substancial da necessidade de formação de grandes estoques de etanol para o período de entressafra. Com uma oferta mais permanente e contínua ao longo do ano, houve maior segurança no abastecimento e uma redução relevante da volatilidade dos preços”, explica o presidente da UNEM.

Formação de custos e dinâmica de mercado

Outro ponto central do debate diz respeito à formação de custos. No caso do etanol de cana, o custo da matéria-prima está fortemente ligado à dinâmica do mercado internacional de açúcar e às condições do mercado doméstico de etanol, já que as usinas ajustam seu mix produtivo de acordo com os preços relativos desses dois produtos.

No caso do etanol de milho, o principal insumo para formação de custos são as cotações internacionais do grão, que balizam os preços domésticos. Ainda assim, o modelo produtivo apresenta características próprias que favorecem ganhos de escala, especialmente nas regiões onde a produção de milho é excedentária.

Campos Filho destaca também diferenças na matriz energética e nos coprodutos. “A cana já traz a biomassa necessária para a produção do etanol, por meio do bagaço. No milho, normalmente é preciso uma biomassa externa, como madeira ou até o próprio bagaço de cana em sistemas integrados”, afirma. 

Em contrapartida, ressalta, “no etanol de milho, os coprodutos como DDG e óleo de milho são fundamentais para a viabilidade econômica do processo”.

De acordo com Nolasco, embora a formação de preços seja complexa e influenciada por múltiplos fatores, a expansão do etanol de milho tem contribuído para tornar o mercado mais equilibrado.

“O crescimento do etanol de milho contribui de forma relevante para a previsibilidade e a estabilidade da oferta do produto no mercado, impactando positivamente o equilíbrio dos preços. O parque industrial encontra-se majoritariamente concentrado no Centro-Oeste, o que estimula produções em larga escala e maior integração logística”, diz o presidente da UNEM. 

Complementaridade e políticas públicas

A ideia de que o etanol de milho compete diretamente com o etanol de cana foi mais presente nos primeiros anos de expansão desse modelo. Hoje, no entanto, essa percepção perdeu força diante dos efeitos práticos observados no mercado.

Segundo Campos Filho, o crescimento do etanol de milho foi fundamental para complementar a oferta nacional em um período de maior direcionamento da cana para a produção de açúcar. “Nos últimos quatro anos, os dois modelos conviveram muito bem”, complementa. 

Segundo o presidente da UNEM, a oferta adicional viabilizada pelo etanol de milho foi decisiva para a manutenção e o avanço de políticas públicas voltadas à ampliação da mistura obrigatória de etanol na gasolina.

“A oferta de mais de 10 bilhões de litros de etanol de milho por ano viabilizou políticas públicas como o E30, além de permitir que as usinas de cana ampliassem o mix açucareiro e aproveitassem os prêmios observados no mercado internacional nas últimas três safras, sem comprometer o abastecimento do combustível”, diz Nolasco. 

Sem essa produção adicional, avalia o executivo, a mistura obrigatória dificilmente teria se mantido em patamares elevados nos últimos anos, especialmente diante de eventos climáticos adversos que afetaram a produção de cana-de-açúcar.

Dentro desse novo contexto, as chamadas usinas flex ganharam papel estratégico. Essas unidades conseguem produzir etanol de milho durante a entressafra da cana, utilizando o bagaço como fonte energética para garantir eficiência no balanço de energia e vapor.

“As experiências das usinas de etanol de cana com milho são fantásticas. Não há mitos que resistam a essa combinação”, afirma Nolasco.

Emissões, eficiência energética e carbono no centro do debate

Do ponto de vista ambiental, tanto o etanol de cana quanto o de milho apresentam baixas pegadas de carbono e elevada eficiência energética, especialmente quando comparados aos combustíveis fósseis.

No caso do biocombustível fabricado a partir da cana-de-açúcar, o desempenho ambiental é impulsionado pela alta produção de biomassa por hectare e pelo uso do bagaço como fonte de geração de energia renovável dentro das próprias usinas.

O etanol de milho, por sua vez, se destaca por estar fortemente inserido no sistema da segunda safra, o que evita a necessidade de expansão de área agrícola e reduz riscos associados à mudança de uso do solo.

“Essa característica permite uma baixa pegada de carbono, viabilizada pelo aproveitamento da cultura intermediária, segregando insumos e operações agrícolas ao longo de múltiplas safras”, explica Nolasco.

Campos Filho destaca ainda o papel do RenovaBio nesse processo. “O programa permitiu certificar a produção com base na intensidade de carbono individual de cada produtor”, afirma.

Para ambos os dirigentes, a comparação entre cana e milho perde relevância diante do desafio maior. “Temos uma agenda comum. O nosso inimigo a ser enfrentado é o carbono”, resume Nolasco.

Desenvolvimento regional e economia circular

Além dos impactos energéticos e ambientais, a expansão do etanol de milho tem desempenhado papel relevante no desenvolvimento econômico regional, especialmente no Centro-Oeste.

As biorrefinarias transformam excedentes exportáveis de milho em etanol, bioenergia, óleo e farelos proteicos, como DDG e DDGS, insumos fundamentais para as cadeias de suínos, aves, bovinos e peixes.

“Essas unidades estão literalmente transformando as regiões sob sua área de influência, ao converter excedentes em biocombustível e produtos para nutrição animal, promovendo simultaneamente a segurança energética e alimentar”, afirma Nolasco.

Campos Filho acrescenta que a lógica de descarbonização cria um círculo virtuoso. “Esse modelo remunera quem produz com menor pegada de carbono e incentiva a expansão do etanol como solução de descarbonização”, diz. Segundo ele, esse movimento abre espaço para novas frentes de demanda, como combustível sustentável de aviação, transporte marítimo e pesado, fundamentais para absorver o crescimento futuro da oferta.

Fonte: Broto Notícias

Do site: Udop