NY abaixo do custo de produção: a conta vai chegar
20-04-2026
O mercado de açúcar continua a escrever capítulos recheados de apreensão que poucos analistas ousariam imaginar há alguns meses. Uma combinação de petróleo em alta, real valorizado e ao mesmo tempo NY colapsando como se não houvesse suporte.
Arnaldo Luiz Corrêa
O futuro de NY não consegue ultrapassar a barreira dos 14 centavos de dólar por libra-peso, nível que não remunera 10 de cada 10 produtores de açúcar no planeta. Com o aumento dos insumos, do preço do diesel (que representa aproximadamente 5% do custo total do açúcar) e o real valorizado, o custo de produção do açúcar VHP posto na usina (custo caixa) hoje é de 16.25 centavos de dólar por libra peso, quase 300 pontos acima do nível de fechamento de NY, que encerrou a sexta-feira cotado a 13.33 centavos de dólar por libra peso, uma queda de 43 pontos acumulada na semana (quase 9.50 dólares por tonelada)
Em commodities, normalmente o custo de produção para o produto que está no campo e precisa ser colhido e processado, não tem a menor importância. Produziu, vai ter que colher e processar e vender independentemente do valor de mercado. Isso ocorre porque há contas a pagar e compromissos assumidos anteriormente. Custo de produção afeta a próxima safra. Com o encolhimento da receita das usinas proveniente da queda dos preços, a dúvida é se vai sobrar caixa para investir na renovação de 1/6 do canavial e na utilização de fertilizantes e adubos num produto que não paga nem o custo de produção. A conta virá em 2027.
Por trás dessa inércia aparente do mercado de açúcar em NY, há forças que trabalham em sentidos opostos com vigor notável. Do lado que pesa sobre os preços, o ambiente geopolítico criado pela política tarifária americana segue como fonte de ansiedade para todos os mercados de commodities. O dólar enfraqueceu de forma acelerada nas últimas duas semanas, o que, na prática, significa que o real se valorizou — e isso dói direto na veia das usinas brasileiras. O fechamento de sexta-feira foi de R$ 4.9797 uma queda na semana de 0.68%.
Quando o câmbio cede, a receita em reais encolhe mesmo que o preço em centavos de dólar por libra-peso se mantenha estável, criando um efeito silencioso, mas perverso sobre a lucratividade do setor. A valorização do real não é passageira de fim de semana: ela reflete uma combinação de dólar estruturalmente mais fraco no mundo e percepções de risco que se redistribuem de forma não trivial entre os países emergentes.
Some-se a isso a posição dos fundos especulativos, que segundo o COT (Commitment of Traders) divulgado hoje pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities, com base na posição do dia 14 de abril, estavam vendidos a descoberto 147,214 lotes (7.5 milhões de toneladas de açúcar) — uma aposta direcional de queda que não é pequena nem tímida. A participação dos fundos hoje é de mais de 15% da posição em aberto, ou seja, ainda existe espaço para eles atuarem mais.
No campo das usinas brasileiras, o diagnóstico é de fixação ainda muito aquém do desejável para esta época do ano. Subestimamos — e o uso da primeira pessoa do plural é intencional, pois o mercado como um todo incorreu no mesmo erro — o quanto as usinas estavam pouco fixadas. Com os preços abaixo do nível de conforto operacional e o câmbio desfavorável, as usinas que não aproveitaram as janelas de preços mais elevados ao longo de 2025 estão agora diante de uma conta difícil. Fixar preços amargando um desconfortável prejuízo operacional.
Nesse cenário digno de filme de terror — daqueles em que o espectador sabe que o personagem não devia abrir a porta, mas ele abre mesmo assim — as usinas tendem a privilegiar a produção de etanol, que no momento remunera melhor do que o açúcar. O detalhe desagradável é que vivemos sob os auspícios de alguém que, a julgar pelas decisões recentes, parece ter conseguido uma licença médica generosa do hospício e resolvido gerir a política energética nas horas vagas. O resultado é um mercado de combustíveis que oscila com a serenidade de um sismógrafo em dia movimentado, transformando qualquer tentativa de planejar orçamento anual em exercício de futurologia amadora. Para coroar o enredo, a reabertura do estreito de Hormuz derrubou o petróleo com a delicadeza de um piano caindo do décimo andar, rearranjando de uma tacada só a relação entre etanol e açúcar — e, de quebra, as premissas de quem havia fechado modelos na semana anterior achando que tinha entendido o filme.
A Archer estima para a safra 26/27 uma moagem de 625 milhões de toneladas de cana, com mix açúcar na casa de 47.8% e produção total de açúcar em torno de 39.1 milhões de toneladas, considerando ATR/TC de 137.50. A questão da ATR merece atenção especial. A curva histórica mostra que a safra 26/27 pode iniciar com níveis de ATR aquém das safras anteriores. ATR mais baixa no começo da safra comprime a receita por tonelada de cana e reduz a margem de manobra para ajustes no mix entre açúcar e etanol. Se os preços de NY não melhorarem no segundo semestre e o etanol hidratado também não contribuir com cotações mais robustas, o resultado financeiro de boa parte do setor vai exigir criatividade contábil ou paciência dos acionistas.
Falando em etanol, o cenário de demanda pelo ciclo Otto segue favorável. O consumo de combustíveis cresceu 2,7% nos últimos doze meses, e o hidratado segue competitivo como alternativa à gasolina. O ponto de tensão está no lado Petrobras: o represamento do preço da gasolina pela estatal, que hoje opera com desconto de quase 40% em relação ao preço internacional, é um fator que distorce a equação de demanda e penaliza o etanol por tabela. É uma anomalia que não se sustenta indefinidamente, mas a política de preços da empresa é refém de considerações que vão muito além do equilíbrio de mercado. Por ora, o setor convive com a distorção e torce para que a janela de ajuste apareça antes que o estrago seja irreversível.
No cenário internacional, três países merecem leitura atenta. A produção indiana não deve superar 28 milhões de toneladas, com usinas de Maharashtra e Karnataka encerrando antes do previsto — segundo ano seguido de déficit. O FOB indiano, na casa de US$ 450 por tonelada, está suficientemente acima do custo dos concorrentes para limitar o impacto real no mercado global. Na prática, o volume exportável da Índia é menor do que os números brutos sugerem.
A Tailândia encerra a safra 25/26 com moagem estimada entre 96 e 98 milhões de toneladas de cana, e o interessante é que este é o primeiro ano em que as usinas tailandesas estão autorizadas a processar caldo de cana para etanol — mais de 1 milhão de toneladas já foram desviadas para essa finalidade. Para a safra 26/27, o quadro é ainda mais delicado: a doença da folha branca avança, a tensão com Camboja e Myanmar reduz disponibilidade de mão de obra, e agricultores estão migrando para mandioca.
A União Europeia também contribui para o lado do suporte de preços. A produção 2025/26 cai para 15.2 milhões de toneladas com área de beterraba reduzida em 10.6%. Após o colapso de preços de 35% em 2025, processadores europeus estão cortando área de forma emergencial, o que sinaliza uma oferta mais apertada nos próximos ciclos.
A volatilidade implícita permanece acima da média histórica, sinal de que o mercado está comprando proteção nos dois sentidos — calls e puts. Isso é coerente com um ambiente de incerteza elevada onde os participantes não têm convicção de direção, mas têm certeza de que o movimento quando vier poderá ser expressivo. Nesse tipo de mercado, a disciplina de hedge supera qualquer estratégia direcional. Para as usinas, call spread ou estrutura 1x2 seguem como opções tecnicamente coerentes com o cenário de preços baixos, mas com potencial de recuperação assimétrica. O fence também está na mesa para quem precisa de proteção contra nova queda sem abrir mão totalmente da valorização.
O resumo de tudo isso é desconfortável na sua honestidade: o mercado está barato em termos históricos, os fundamentos de médio prazo apontam para oferta mais apertada em 26/27, mas no curto prazo a força vendedora dos fundos, o câmbio desfavorável e o ruído geopolítico mantêm os preços sob pressão. O nível de 14 centavos de dólar por libra peso não é um chão garantido — é um campo de batalha. E batalhas, como todo participante de mercado eventualmente aprende, não terminam no horário previsto.
Nosso colaborador Marcelo Moreira aponta que o vencimento maio/26 tocou a mínima dos últimos três anos em 13.22 centavos de dólar por libra peso. O mercado segue travado abaixo da média móvel de 50 dias (14.30 centavos de dólar por libra peso), com os próximos suportes mapeados em 13.00 e 12.81 centavos. No médio prazo, ainda há espaço para recuperação, com o mercado podendo buscar o fechamento do gap aberto entre os dias 7 e 8 de abril — intervalo entre 14.51 e 14.57 centavos de dólar por libra peso — o que reabriria o caminho para uma eventual retomada da tendência de alta. Superado esse gap, as resistências seguintes ficam em 15.13 e 15.80 centavos de dólar por libra peso.
Fonte: Archer Consulting

