O embargo de Trump e o etanol
15-04-2026
Da crise de 1973 à segurança energética: por que o etanol volta ao centro da estratégia brasileira
Por: Edmundo Coelho Barbosa
O bloqueio do petróleo em 1973 mudou a história energética do Brasil. Ao expor a vulnerabilidade de países dependentes de combustíveis fósseis importados, aquela crise levou o país a criar o Proálcool e a iniciar uma longa trajetória de construção de resiliência, baseada em produção doméstica, capacidade industrial, tecnologia automotiva e expansão dos biocombustíveis.
Ao longo das últimas décadas, o Brasil transformou uma fragilidade em vantagem estratégica. O etanol deixou de ser apenas resposta emergencial e passou a integrar de forma estrutural a matriz de transportes, com oferta nacional, motores flex, rede de distribuição consolidada e conhecimento técnico acumulado em toda a cadeia sucroenergética.
As tensões atuais no Oriente Médio e os riscos sobre o abastecimento global de petróleo recolocam essa escolha histórica em evidência. Em momentos de guerra, bloqueios e volatilidade internacional, países que dependem mais da gasolina fóssil ficam mais expostos a choques de preços e insegurança de abastecimento. O Brasil, por sua vez, dispõe de uma alternativa real, renovável e produzida internamente.
Usar etanol hoje é uma decisão econômica, energética e estratégica. O combustível renovável fortalece a segurança do abastecimento, reduz a dependência externa, movimenta a agroindústria nacional, gera emprego e renda e contribui para a descarbonização da mobilidade.
Além disso, o país já avançou do ponto de vista regulatório e técnico. Em junho de 2025, o governo federal aprovou a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 27% para 30%, com entrada em vigor em agosto daquele ano. A mudança foi amparada por estudo técnico coordenado pelo MME, que avaliou inclusive cenários com E32, e pela Lei nº 14.993/2024, que autoriza a ampliação da mistura para até 35%, mediante comprovação técnica e ato do Poder Executivo. Em outras palavras, o Brasil já dispõe de base técnica e jurídica para discutir com segurança a evolução para 32% de etanol anidro na gasolina fóssil.
A lição de 1973 permanece atual: segurança energética não se improvisa. Ela se constrói com visão de longo prazo, produção nacional e diversificação da matriz. Foi isso que o Brasil fez com o etanol. E é justamente por isso que, diante das novas incertezas globais, ampliar o uso dos biocombustíveis continua sendo uma escolha inteligente e alinhada ao interesse nacional.
Fonte: Udop

