O novo ciclo internacional do Agro brasileiro: Taxonomia Sustentável abrindo portas e garantindo mercados
07-08-2026
Por Roberta Züge, membro do Conselho Científico Agro Sustentável e Estela Kurth
Em três décadas, o Brasil passou de exportador relevante de commodities agrícolas a um dos centros de gravidade do comércio mundial de alimentos, fibras e bioenergia. As exportações brasileiras de bens cresceram de cerca de US$ 53 bilhões, em 1997, para o recorde de US$ 348,7 bilhões, em 2025. Nesse último ano, o Agronegócio respondeu por US$ 169,2 bilhões — 48,5% do total nacional —, com alta de 3,6% no “quantum” embarcado. A safra 2024/2025, de 352,2 milhões de toneladas, sustentou esse avanço mesmo com preços médios menores em diversos produtos.
O agronegócio brasileiro tornou-se estratégico para o abastecimento e a segurança alimentar internacional. Em contrapartida, continua sofrendo sanções por parte de alguns mercados mais exigentes, enquanto certas barreiras tarifárias começam a ser transpostas.
Nesse cenário, o Acordo Comercial Provisório Mercosul--União Europeia, aplicado desde 1º de maio de 2026, inaugura uma nova fase. A União Europeia eliminará progressivamente tarifas sobre 92% das importações originárias do Mercosul e dará acesso preferencial a outros 7,5%, por meio de quotas e outros mecanismos. Produtos agrícolas sensíveis terão tratamento específico, exigindo atenção às regras de origem e aos cronogramas de desgravação.
A redução tarifária é apenas a camada mais visível da oportunidade. O mercado europeu combina elevado poder de compra com exigências rigorosas de sanidade, rastreabilidade, origem, controle do desmatamento, emissões e comprovação de atributos socioambientais. O acordo não reduz esses padrões; portanto, para ampliar sua participação, produtores, cooperativas, frigoríficos, tradings e agroindústrias precisarão demonstrar conformidade ao longo da cadeia produtiva. Isto exige que, além de realizar, deva-se também evidenciar que as práticas são executadas em conformidade com os acordos firmados.
Um dos desafios do setor tem sido comprovar as boas práticas adotadas no campo. Agora, a inovação pode promover uma nova revolução: ampliar a produção de dados verificáveis. Não basta cultivar, criar ou processar com eficiência, e sim provar com evidências, onde e sob quais condições cada produto foi obtido.
Georreferenciamento, rastreabilidade individual ou por lote, monitoramento de fornecedores indiretos, mensuração de emissões, diligência socioambiental e registros auditáveis deverão ser incorporados ao produto exportado. A experiência brasileira em defesa agropecuária, controle sanitário e gestão de cadeias complexas demonstra que o país possui base técnica para este novo desafio.
O acordo comercial abre mercado, mas não garante presença
Nessa nova realidade de ampliação de exigências, a Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB) pode ser uma aliada para transformar liderança comprovada em sustentabilidade. Trata-se de um sistema de classificação de atividades econômicas que representa uma aproximação do agronegócio com a sustentabilidade e as finanças, consolidando uma nova lógica de integração entre risco, valor e resiliência.
Sua primeira edição abrange setores como agricultura, pecuária, produção florestal, pesca, classificando atividades e projetos que contribuam para objetivos climáticos, ambientais e sociais. Entre estes: práticas relacionadas à produção agropecuária sustentável, manejo florestal, pesca e bioeconomia
Na União Europeia, a taxonomia já orienta decisões de capital. Em 2024, as empresas reportaram € 273 bilhões em investimentos e € 825 bilhões em receitas alinhadas ao sistema de classificação. No Brasil, a taxonomia também foi instituída para mobilizar investimentos, estimular inovação e gerar informações confiáveis sobre finanças sustentáveis. Para o Agro, essa convergência pode ampliar o acesso a crédito, fundos de transição, seguros e compradores interessados em cadeias resilientes.
Diante do que foi apresentado, é razoável concluir que a vantagem competitiva sustentável do setor Agropecuário Brasileiro não se limita ao custo de produção, ao clima ou à disponibilidade de terras. Ela será construída muito mais pela combinação desses diversos fatores associados a: produtividade, integridade ambiental, garantia da biodiversidade, sanidade, tecnologia e rastreabilidade.
Esta análise reforça que empresas e cadeias de valor capazes de se antecipar às exigências europeias poderão transformar a conformidade regulatória em diferencial estratégico, fortalecendo sua reputação, assegurando contratos de longo prazo, obtendo condições financeiras mais favoráveis e ampliando o acesso a segmentos de maior valor agregado.

