Otimizar tratos culturais nas socas é a senha para obter boas safras
23-04-2026
Otimizar tratos culturais nas socas é a senha para obter boas safras
Por Marcos Aurélio C dos Santos, engenheiro Agrônomo
Cana-de-açúcar é cultura semi-perene, os plantios acontecem nas melhores condições climáticas e as colheitas em ambiente seco e ensolarado.
A brotação das gemas dos rebolos e das cepas para acontecer carece de chuva e de sol, na cana-planta São Pedro providencia a chuva e nas soqueiras o agricultor pode suprir a necessidade com irrigação, e nos dois casos a insolação é dádiva da vida.
Na maioria dos casos e na nossa linguagem, a cana-planta é tratada a “pão de ló” ao passo que as socas recebem adubos e herbicida, e tentam viver, quase que por conta própria. “Se quiserem sobreviver torçam pra chover, mas torçam pra não cair muita chuva pra não atrapalhar a moagem”.
Os tratos culturais dedicados a esses estágios de cultivos são diferentes. A cana-planta tem de tudo e na hora. Corretivo e fertilizantes são localizados e as pragas, doenças e ervas daninhas são afugentadas para que não interfiram na produtividade.
As canas-socas também têm seus tratos culturais, mesmo que alguns tratos nem sempre sejam atendidos (irrigação), e os outros são atendidos quando possível.
Os fertilizantes normalmente não são incorporados, e os corretivos – se é que são necessários? – não são aplicados, e tudo seguindo programação, e depois fica o sentimento de o que foi feito seja suficiente para prover boa safra.
Como são atendimentos desiguais nos dois estágios, além da genética, é impossível que as quedas nas produtividades não aconteçam.
A redução da produtividade da cana-planta para a soca é bem entendido por todos, até pelos bancos, que ao preparar os planos de financiamento concebem as safras com queda de produtividades entre cana-planta e cana-soca, e dependendo do sistema de produção do tomador de crédito, estima em 80, 60, 50, 40 e 30 t/ha (média de 52 t/ha) ou 100, 80, 70, 60 e 50 t/ha (média de 72 t/ha) para todos os 5 estágios de cultivo. As reduções listadas variam de 17% até 25% nos 5 cortes do primeiro caso, e de 13% até 20% no segundo; e o mais surpreendente de tudo é saber que a própria atividade não gera lucros do tamanho das perdas concebidas.
Outro fato surpreendente é que mesmo a atividade convivendo com essa perda de produtividade sistemática há séculos, nada ainda foi implementado para identificar o que se pode fazer para minorar a perda. Se são deficiências nutricionais, ou não adoção de outros tratos culturais que provocam parte dessas quedas de produtividades.
A quase totalidade dos estudos sobre adubação de cana-de-açúcar, por exemplo, foram conduzidos com cana-planta, e quase nada foi dedicado ao entendimento da nutrição mineral e adubação das soqueiras.
A bibliografia confirma que alguns experimentos em soqueiras foram conduzidos em São Paulo no fim da década de 50, e outros em Pernambuco e Paraíba no fim da década de 80, e em ambos os casos o objetivo era identificar doses econômicas, e no NE foi além disso, observar se diferentes formas de aplicação dos fertilizantes promovia respostas na produtividade da cultura.
Esses poucos experimentos implantados no NE confirmaram que as soqueiras respondem melhor que as canas-planta para aplicações de Nitrogênio e Potássio, tanto para TCH e TAH, que exatamente os nutrientes passíveis de perdas físicas e químicas, e as respostas às formas de aplicações foram mais expressivas que a elevação das doses individuais dos nutrientes, como informam SANTOS e BARRETO (2021), e dados expostos a seguir.
Observou-se que a elevação das doses de NPK promoveram pequenas elevações nas produtividades, e as diferentes formas de acomodações dos fertilizantes no solo promoveram aumentos de 9% a 30% nas produtividades quando comparados com a aplicação convencional, na superfície, e certamente isso decorreu da melhor a absorção dos nutrientes.
Também pode ser observado que as doses dos NPK mais econômicas devem estar próximas dos 100 kg/ha.
Outro aspecto a considerar é que nesses experimentos as matérias primas utilizadas foram Sulfato de Amônio, Superfosfato Triplo e Cloreto de Potássio, e o Sulfato de Amônio, por ter baixa concentração e o Nitrogênio na forma amoniacal (NH4+), sofre perda por volatilização menor que o Nitrogênio da Ureia.
A Ureia é largamente usada nas misturas de grânulos, ao passo que o Sulfato de Amônio é usado apenas no fechamento de fórmulas comerciais.
A nova opção das misturadoras é produzir fórmulas com matérias primas concentradas – Ureia, MAP e Cloreto de Potássio - e a Ureia, por ter N amídico, sofre perdas expressivas quando não é incorporada ao solo.
A oxidação da ureia no solo, também chamada de hidrólise seguida da nitrificação (oxidação biológica), é o processo natural que converte o Nitrogênio contido no fertilizante em forma absorvível pelas plantas, e a enzima urease (presente no solo), converte o N amídico da ureia em amônia (NH) e logo em seguida para amônio (NH), e a hidrólise se complementa pala oxidação biológica realizado também pelas bactérias do solo (nitrificação), que convertem a forma amoniacal em nítrica (NO), que é a forma preferida pelas plantas.
A amônia (NH3) que é a forma intermediária da hidrólise, é gás, se volatiliza pela ação do clima e dos microrganismos, e para melhorar o aproveitamento do fertilizante pelas plantas, ele deve ser incorporado ao solo.
A atuação da urease é favorecida pela alta temperatura ou por umidade ou pH elevados, e no nosso caso específico a insolação do verão é a grande vilã. As perdas podem variar de 30% a 40%, máximo de 60% em condições climáticas extremas, e essas perdas são maiores nos primeiros quatro dias após a aplicação.
A única possibilidade de gerar informações consistentes que possa otimizar adubação e/ou calagem de soqueiras, é com a instalação de experimentos de campo com NPK, com calcário e com gesso agrícola, e formas de aplicações de todos. Os experimentos NPK identificam as doses econômicas, e os com os corretivos (Calcário e/ou Gesso Agrícola) confirmam suas importâncias e necessidades, e para que os resultados sejam confiáveis é preciso que muitos campos experimentais sejam instalados, pelo menos 50 de cada busca.
Além da falta de informações sobre a nutrição mineral das soqueiras, sabendo-se apenas que não respondem significativamente à aplicação de Fósforo (P2O5), mesmo assim o nutriente não deveria ser excluído de todas as fórmulas para esse estágio de cultivo.
Tudo deve ter iniciado com a exclusão do P da adubação da 1ª soca (2ª folha). Algum produtor ou técnico não ter observado diferença no aspecto vegetativo da lavoura com anos anteriores, ou ainda pelo custo elevado do nutriente, tomou a decisão de não mais usar, divulgou o procedimento e foi seguido por um e depois por muitos produtores e virou prática, aí o Fósforo foi definitivamente excluído das fórmulas comerciais de adubação de soqueiras.
Na atual conjuntura é preciso criar alternativas para conviver com a atividade canavieira no Estado e no Brasil, e melhorar a eficiência da adubação é reduzir os custos de produção, e sem experimentação não se chegará a nada confiável.
Nada substitui o experimento de campo na obtenção de resultado confiável para mudar uma prática ou na sua mudança, e no caso especifico, adubação de soqueiras esse conhecimento ainda não foi obtido e causa disso o produtor vive criando alternativas para produzir melhor.
É preciso entender que o ganho obtido na experimentação em soqueiras esse valor será estendido sobre os 85% dos cultivos.
Estar-se vivendo há mais de 30 anos utilizando como referência, informações de estudos feitos com cana-planta, e nesse passado muito pouco foi feito com canas-soca, então se o propósito é elevar a produtividade da principal cultura do Estado, isso só acontecer com a melhoria dos tratos culturais nas soqueiras.
Como forma de acalentar o setor sobre as dificuldades de instalação de um programa experimental em soqueiras, é a certeza de que é mais rápido, mais barato e mais fácil instalar experimentos em soqueiras que nas canas-planta, e o ganho de produtividade experimental, certamente será obtido, será transformado sobre a maior extensão dos cultivos.
Em linhas gerais, ganhos obtidos em soqueiras são transformados em maiores colheitas e consequente maior faturamento.
Qualquer esforço que se faça em Pernambuco para melhorar a produtividade da cana e colocar o setor próximo de melhores no NE ou do Brasil, necessariamente será pelas soqueiras, e pode-se estabelecer como primeira meta, mesmo sem os ganhos experimentais, que a redução para 10 % as perdas do que se colhe nas canas-planta e soqueiras, através da incorporação dos adubos ao solo e eliminação do stress hídrico nos meses mais ensolarados.
É perfeitamente conhecido por todos que sem água nenhum ser vivo consegue sobreviver e produzir, então a mitigação do stress hídrico das soqueiras é reconhecidamente o maior fator de produção da cana-de-açúcar.
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Fonte: Folha de Pernambuco

