Para produtores, taxa de juros do crédito rural segue elevada
04-07-2024
Agricultor de grande porte vê dificuldade no acesso a linhas, mas agricultura familiar celebra novas condições
Por Paulo Santos e Nayara Figueiredo — São Paulo
Em um momento de aperto de margens e envididamento em elevação, representantes dos produtores rurais avaliaram que as taxas de juros do Plano Safra 24/25 não atendem suas necessidades.
Mais sobre o Plano Safra 24/25:
Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), as condições podem dificultar o acesso ao crédito. “A margem do produtor caiu 30% na última safra. Ele não tem capital próprio e terá dificuldade no mercado privado para buscar esse crédito”, disse Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA.
Sem uma redução significativa nos juros, o custo final das operações de crédito ficará mais alto, puxado pelas taxas do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), que estão mais elevadas, comentou Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro. “No momento da construção do Plano Safra do ano passado, nós tínhamos uma taxa Selic a 13,75%, e no deste ano estamos em uma Selic de 10,5%”, pontuou. “Talvez houvesse espaço para uma redução da taxa”.
As linhas com taxas de juros de dois dígitos não devem estimular investimentos, acredita Ana Paula Kowalski, técnica do Departamento Técnico e Econômico da Federação de Agricultura do Estado do Paraná (Faep).
Leila Harfuch, sócia gerente da consultoria Agroicone, diz que, por outro lado, o aumento no volume de recursos a juros livres, especialmente para custeio, “abre um espaço importante para aumentar também o volume de recursos para investimento”.
A indústria de máquinas acredita que, apesar da postura retraída dos produtores, os recursos do Moderfrota podem ajudar o setor a voltar às compras. Com isso, os recursos devem se esgotar em três meses, avalia Pedro Oliveira, presidente da Câmara de Máquinas Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq).
“O juro do Moderfrota, de 10,5% para médios e 11,5% para grandes produtores, não é bom, mas também não é ruim. No mercado, não se acha um juro mais baixo, vai achar de 16% a 17% nos bancos”, disse. “Com o preço das commodities em queda e a rentabilidade do produtor comprometida, os juros ganham peso nas decisões de compra de produtos de alto valor”.
O presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, criticou o montante para irrigação e armazenagem. “O Brasil tem 120 milhões de toneladas de déficit de armazenagem, e todo ano [o déficit] cresce 5 milhões [de toneladas] por falta de financiamento”, disse.
O aumento da verba para a subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), de R$ 210,9 milhões, também ficou abaixo das expectativas. “Esperávamos incremento de R$ 1 bilhão, chegando a R$ 3 bilhões. Vamos levar a proposta para o ministro [da Fazenda, Fernando Haddad] para debater no orçamento no final do ano”, disse Bruno Lucchi, da CNA.
Plano Safra 24/25 da Agricultura Familiar
Já as avaliações sobre o Plano Safra da Agricultura Familiar foram mais positivas. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) esperava que o limite máximo para os juros da agricultura familiar ficasse em 4% ao ano — o plano prevê taxas de até 6%. “Fizemos a sugestão ao governo no início do ano, e ela não foi atendida. Por outro lado, só pelo fato de se ter redução de juros para a agricultura familiar [em relação ao plano anterior], já consideramos que há um compromisso do governo com o setor”, disse Vânia Marques Pinto, secretária de Política Agrícola da Contag, à reportagem.
A coordenadora geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Contrag), Josana Lima, comemorou o aumento de benefícios a práticas agroecológicas.
A criação de uma linha para compra de máquinas e implementos de pequeno porte com juros de 2,5% ao ano foi uma surpresa positiva. “Essa taxa é bastante atrativa. A linha com certeza é bem-vinda”, disse Oliveira, da Abimaq.
Apesar do anúncio de redução de taxas para dez linhas do Pronaf, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) disse que uma linha com taxa de 4% ao ano pode ter custo efetivo de 18,62% ao ano se considerados outros encargos de financiamento.
Fonte: Globo Rural

