Possível El Niño reforça necessidade de acelerar investimentos em armazenamento e resiliência energética, avalia Athon
17-06-2026
As projeções climáticas que apontam para a possível formação de um novo evento de El Niño nos próximos meses reacenderam o debate sobre os impactos das condições hidrológicas sobre o sistema elétrico brasileiro e os custos da energia. O tema estará na pauta de uma reunião convocada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com empresas do setor, para a próxima segunda-feira (22), na sede da Âmbar Energia Amazonas, em Manaus (AM), para discutir os potenciais efeitos do fenômeno sobre as operações.
Segundo projeções divulgadas pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há 63% de probabilidade de formação de um evento de El Niño de alta intensidade entre setembro deste ano e janeiro de 2027. Especialistas também alertam para o aumento do risco de acionamento de bandeiras tarifárias mais elevadas a partir do segundo semestre. Atualmente, os reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste - responsáveis por cerca de dois terços da capacidade de armazenamento de energia do país - registram os menores níveis para esta época do ano desde a crise hídrica de 2021.
Para Daniel Maia, CEO da Athon, embora não seja possível eliminar os riscos associados a um evento climático dessa magnitude, ainda há medidas capazes de aumentar a resiliência do sistema elétrico e reduzir a exposição de consumidores e empresas a eventuais pressões tarifárias.
“O El Niño é um fenômeno natural que não pode ser evitado, mas seus impactos podem ser mitigados. O principal desafio é aumentar a flexibilidade do sistema elétrico para que ele consiga responder de forma mais eficiente a períodos de maior estresse operacional, reduzindo a necessidade de recorrer às alternativas mais caras de geração”, afirma.
Segundo o executivo, a discussão reforça a importância de acelerar investimentos em tecnologias que fortaleçam a segurança energética do país, como sistemas de armazenamento em baterias, redes mais inteligentes e geração distribuída próxima aos centros de consumo.
“Grande parte das oscilações de consumo acontece na ponta do sistema, nas redes de distribuição que atendem residências, comércios e pequenas indústrias. Por isso, faz sentido ampliar a presença de sistemas de armazenamento próximos aos centros de carga. As baterias podem oferecer flexibilidade exatamente onde a demanda varia mais ao longo do dia, ajudando a equilibrar o sistema de forma mais eficiente”, diz.
Maia destaca que o Brasil ainda não possui uma capacidade de armazenamento suficiente para neutralizar os efeitos de um evento climático em escala nacional. No entanto, sistemas distribuídos de armazenamento podem ser implementados em prazos significativamente menores do que grandes obras de geração ou transmissão, contribuindo para ganhos graduais de resiliência já no curto prazo.
Na avaliação da Athon, os efeitos de um período prolongado de estiagem não se limitam ao momento de maior pressão sobre o sistema. O acionamento mais intenso de usinas termelétricas pode gerar impactos que se estendem para os ciclos tarifários seguintes, ampliando a importância de investimentos capazes de aumentar a flexibilidade e a eficiência da operação elétrica.
“O sistema elétrico brasileiro é reconhecido pela robustez proporcionada pela sua ampla interligação nacional. O armazenamento distribuído pode acrescentar uma camada adicional de segurança, criando maior capacidade de resposta local em situações de contingência. Dessa forma, combinamos a força de um sistema integrado com a resiliência de microrregiões capazes de sustentar temporariamente parte de suas operações, tornando toda a infraestrutura elétrica mais preparada para eventos extremos”, conclui.

