Preço do etanol reage a clima, custos e à política energética
11-02-2026
Clima adverso, migração para o açúcar, demanda pelo etanol anidro e metas ambientais apertam a oferta e sustentam preços elevados
O preço do etanol permanece elevado no Brasil como resultado de um choque combinado de oferta, custos e sinal regulatório. O movimento deixou de ser episódico e passou a refletir uma mudança estrutural na formação de preços do biocombustível, cada vez mais sensível ao clima, à dinâmica internacional das commodities e às políticas de transição energética.
Um primeiro vetor é climático. Secas prolongadas e ondas de calor reduziram a produtividade da cana-de-açúcar no Centro-Sul, principal região produtora do país. Com menor rendimento agrícola, a disponibilidade de matéria-prima caiu, comprimindo a oferta de etanol e abrindo espaço para reajustes ao longo da cadeia.
Há ainda a sazonalidade do setor. O etanol costuma ganhar tração de preço na entressafra e em momentos de transição do calendário agrícola, quando a oferta de cana e a produção de biocombustível ficam mais restritas. Mesmo quando o clima não é o gatilho principal, a sazonalidade funciona como um “piso” que pressiona os preços: com estoques mais apertados, qualquer choque adicional — produtividade menor, mix mais açucareiro ou custos maiores — se transmite mais rapidamente para o preço na usina e, por consequência, nas bombas.
Esse aperto foi agravado pela mudança no mix produtivo. Com preços internacionais do açúcar sustentados, usinas direcionaram parcela maior da cana para a produção açucareira. A decisão é economicamente racional, mas reduziu a produção de etanol, sobretudo do hidratado, mais sensível às variações de oferta no curto prazo.
Há ainda um fator adicional, menos visível ao consumidor, mas relevante para a formação de preços: a demanda pelo etanol anidro, misturado obrigatoriamente à gasolina. Como 27% da gasolina vendida no Brasil é composta por etanol anidro, parte significativa da produção é “drenada” para esse uso, reduzindo a quantidade de etanol que poderia ser ofertada diretamente nas bombas. Em períodos de oferta ajustada, esse deslocamento contribui para pressionar os preços do etanol hidratado.
O ambiente regulatório completa o quadro. As metas do RenovaBio criam uma demanda estrutural por biocombustíveis e atribuem valor econômico à redução de emissões. Esse sinal fortalece o etanol como ativo da transição energética, mas, em um cenário de oferta apertada, contribui para sustentar preços mais elevados no curto prazo.
A dinâmica da gasolina reforça esse canal. Com a alta do combustível fóssil — influenciada por petróleo mais caro, câmbio volátil e margens mais apertadas — ampliou-se o espaço para reajustes do etanol sem perda imediata de competitividade. A integração entre os dois mercados tornou o preço do etanol mais reativo aos movimentos do petróleo e da política de preços dos combustíveis.
Do lado dos custos, a pressão permanece elevada. Fertilizantes, defensivos agrícolas, diesel, energia elétrica e logística seguem em patamares altos, reduzindo a capacidade do setor sucroenergético de absorver choques sem repasse ao consumidor final. A estrutura de custos mais rígida tornou o preço do etanol menos elástico em cenários de estresse.
Para 2026, a leitura predominante do mercado é de manutenção de preços elevados, com volatilidade. Caso o clima siga adverso ou o açúcar continue competitivo no mercado internacional, a oferta de etanol tende a permanecer ajustada. Mesmo em um cenário de normalização parcial da safra, a demanda regulatória, a mistura obrigatória à gasolina e os custos financeiros mais altos indicam pouco espaço para uma queda estrutural dos preços.
Em síntese, o etanol entra em 2026 operando em um novo equilíbrio: mais dependente do clima, mais integrado ao mercado de combustíveis fósseis e sustentado por um arcabouço regulatório que reforça a demanda. Trata-se de um patamar de preços mais alto — e estruturalmente mais sensível a choques.
Fonte: CNN

