Safra 2026/27 deve ampliar produção de etanol no Centro-Sul
17-03-2026

Pressão no açúcar, avanço do milho e possível El Niño marcam cenário

Andréia Vital

A safra 2026/27 de cana-de-açúcar começa oficialmente em abril em um cenário de pressão sobre os preços do açúcar e expectativa de maior produção de etanol no Centro-Sul. A tendência é de um mix mais alcooleiro nas usinas, acompanhado de aumento da oferta total do biocombustível no mercado doméstico.

O cenário foi apresentado na 18ª edição da série de debates Conexão SCA Brasil, realizada recentemente e transmitida pelos canais da empresa no YouTube e LinkedIn. Participaram da análise o CEO da SCA Brasil, Martinho Seiiti Ono, o meteorologista da Tempo OK, Celso Luís de Oliveira, e o analista de mercado da Pecege Consultoria e Projetos, Raphael Delloiagono.

Segundo projeções da SCA Brasil, a área colhida deve variar entre 8,1 milhões e 8,3 milhões de hectares na próxima temporada. A produtividade média dos canaviais pode alcançar entre 77 e 78 toneladas por hectare, com avanços estimados de 2,3% na área e de 3,6% no rendimento agrícola.

Com esse desempenho, a moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul pode ficar entre 624 milhões e 647 milhões de toneladas, acima das cerca de 610 milhões previstas para o encerramento da safra atual.

A produção de açúcar deve variar entre 39,8 milhões e 42,1 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, a participação do produto no mix industrial tende a recuar. “Projetamos um recuo no mix de produção de açúcar das usinas do Centro-Sul de 51% para uma margem entre 47,5% e 48,5%”, afirmou Ono. A expectativa é de crescimento nas vendas mensais de etanol, somando anidro e hidratado, entre 5% e 10% em relação à média da safra anterior.

Na avaliação de Raphael Delloiagono, os indicadores atuais de vegetação apontam situação favorável para os canaviais em regiões importantes do Centro-Sul. Segundo ele, imagens de monitoramento indicam condições superiores às observadas no mesmo período do ano passado em áreas produtoras como o norte de São Paulo, o Triângulo Mineiro e o sul de Goiás. As estimativas da Pecege indicam moagem próxima de 628 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e produção de açúcar ao redor de 40 milhões de toneladas.

Para o etanol produzido a partir da cana, a projeção é de aumento de cerca de 2,5 bilhões de litros em relação à safra 2025/26. Além disso, o etanol de milho deve seguir em expansão. Delloiagono estima crescimento próximo de 1 bilhão de litros na produção desse biocombustível na mesma base comparativa.

O avanço do etanol de milho também deve ampliar a disponibilidade total do produto no país. Segundo Ono, a oferta adicional pode alcançar entre 3,5 bilhões e 4 bilhões de litros no mercado doméstico a partir da safra 2026/27. “É preciso ampliar o consumo do etanol e democratizar o acesso ao hidratado em regiões que historicamente não tinham oferta do produto”, afirmou.

No campo climático, especialistas monitoram a possível formação de um novo episódio de El Niño ao longo do ano. De acordo com o meteorologista Celso Luís de Oliveira, modelos meteorológicos indicam tendência de formação do fenômeno com intensidade entre fraca e moderada.

“Observamos uma aceleração na formação do El Niño, que normalmente provoca mais chuvas na região Sul e condições mais secas no Norte-Nordeste”, disse Oliveira. Segundo ele, os efeitos podem começar a aparecer a partir de maio, com maior intensidade no segundo semestre e possibilidade de se estender até o início de 2027.

A previsão indica temperaturas acima da média em várias regiões produtoras. O início da safra deve ocorrer em condições mais secas, o que tende a favorecer o avanço da colheita. Por outro lado, a chegada de frentes frias no início do inverno pode provocar aumento das chuvas em áreas como Paraná, Mato Grosso do Sul e norte de São Paulo, situação que pode dificultar temporariamente a retirada da cana do campo.