Salários do agro têm forte alta, mas seguem abaixo da média no país
24-05-2024
Remuneração no campo ainda é menor do que a de atividades em áreas urbanas, mas a diferença diminuiu desde 2019, mostra FGV Agro
Por Nayara Figueiredo — São Paulo
A queda na informalidade e o avanço da tecnologia no campo têm acelerado o aumento da renda dos trabalhadores rurais no país. Entre 2019 e o ano passado, a remuneração média na agropecuária acumulou alta real de 11,3%, um aumento bem superior ao que ocorreu em todo o mercado de trabalho. Nesse mesmo período, a elevação média dos salários em termos reais foi de apenas 1,5%.
Os dados fazem parte de um levantamento feito pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), que o Valor obteve com exclusividade. O estudo baseou-se nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa mostra, no entanto, que, mesmo com a elevação, o agro ainda paga menos do que a média geral. A remuneração na agropecuária era de R$ 1.702,07 em 2019, em média, e subiu para R$ 1.894,89 em 2023. No mercado de trabalho geral, os vencimentos passaram de R$ 2.859,52 para R$ 2.902,18 nesse mesmo período.
“A remuneração média da agropecuária cresceu em velocidade mais acelerada do que os demais setores da economia, e esse crescimento teve mais resiliência”, disse Felippe Serigati, professor do FGV Agro e um dos autores do estudo.
Também há uma grande disparidade entre os salários do agro de cada Estado. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão no topo do ranking, com trabalhadores rurais ganhando acima da média nacional. No setor, a pior remuneração é a da região Nordeste, onde, em alguns casos, os vencimentos são inferiores ao salário mínimo.
Nas últimas décadas, o volume de produção e a produtividade cresceram de maneira expressiva no agronegócio brasileiro, que atende a uma demanda consistente, principalmente no mercado externo. Isso tem mudado o perfil da mão de obra nas lavouras.
“A ocupação de vagas caiu porque diminuiu a contratação de trabalhadores informais. Ao mesmo tempo, o agro passou a buscar mão de obra mais qualificada, oferecendo remuneração mais alta”, afirmou Serigati. “Outros setores da economia não conseguiram encontrar uma trajetória de crescimento nesse período”.
Ele avalia que, ainda assim, o mercado de trabalho geral mostrou resiliência no período no Brasil, a ponto de os salários médios terem até subido acima da inflação. O intervalo que o FGV Agro analisou no levantamento engloba o da pandemia de covid-19, que começou em 2020.
Serigatti acredita que os salários do agro tendem a seguir em ascensão, já que, para ele, o setor não vive um problema conjuntural. A onda recente de pedidos de recuperação judicial no campo, diz, não atinge todo o agronegócio.
Já a perspectiva para o mercado de trabalho em geral é uma incógnita. Muitos setores saíram da pandemia enfraquecidos, afirma Serigatti, e mudanças que surgiram com a reforma trabalhista afetaram o quadro de contratações em alguns segmentos da economia.
Para Gabriel Bezerra Santos, presidente da Confederação dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar), a introdução das negociações diretas entre empregadores e funcionários, por exemplo, tirou a força dos acordos coletivos, que eram, segundo ele, o principal instrumento para se pleitear melhorias na remuneração no campo.
“Os salários no meio rural ainda são os mais baixos do mercado brasileiro. Ainda existe uma questão cultural em algumas regiões, onde se paga menos no campo do que no meio urbano, o que gera dificuldade para contratação de mão de obra”, explicou.
Foi graças a ações coletivas, diz, que a remuneração dos trabalhadores rurais de Goiás tornou-se a mais alta do país. Em 2023, os salários dos goianos que trabalham no campo foram de R$ 3.533, montante 86% superior à média dos demais Estados, segundo a FGV.
“A gente tem três convenções coletivas e vários acordos coletivos no Estado. Isso ajuda muito na busca por aumento de salário. Temos conseguido ao menos que os reajustes não fiquem abaixo da inflação”, disse José Maria de Lima, diretor da Federação dos Trabalhadores Rurais Empregados Assalariados de Goiás (Fetaer-GO). Ainda que veja pontos positivos nas conquistas, Lima também relata a falta de mão de obra para atividades como a de operador de máquinas.
No extremo oposto estão os trabalhadores rurais do Piauí. No Estado, a remuneração média no campo foi de menos de R$ 680 em 2023, segundo o FGV Agro.
Fonte: Globo Rural

