Santa Adélia aposta alto e mira 60% da área produtiva irrigada até 2031
25-11-2025
“Ou a gente irriga ou fecha as portas e vai fazer outra coisa”, afirmou o gerente agrícola da empresa durante Encontro Técnico promovido pelo GIFC
Por Leonardo Ruiz
A necessidade de garantir estabilidade produtiva em uma região marcada por forte déficit hídrico levou a Usina Santa Adélia a assumir um compromisso ambicioso: irrigar 60% de sua área produtiva até 2031. O plano, já aprovado pelo Conselho de Administração, prevê a implantação de 15 mil hectares de irrigação de salvamento e 10.500 hectares sob manejo de déficit controlado.
A estratégia foi detalhada pelo gerente agrícola da empresa, Sandro Rogério de Souza, durante o Encontro Técnico “Irrigação em cana-de-açúcar e seus desafios: variedades responsivas, produtividade e colheitabilidade”, promovido em setembro de 2025 pelo Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana-de-açúcar (GIFC). Durante sua apresentação, o profissional deixou claro que, especialmente para a Unidade de Pereira Bareto, a irrigação não é mais uma opção – é sobrevivência. “Ou a gente irriga ou fecha as portas e vai fazer outra coisa”, resumiu.
Com quase nove décadas de atuação no setor bioenergético nacional, a Santa Adélia opera duas unidades produtoras de açúcar, etanol e energia elétrica, com capacidade conjunta de moagem de 6 milhões de toneladas por safra, 75% proveniente de produção própria. A primeira unidade, em Jaboticabal (SP), consolidou-se em um ambiente controlado, com produtividades médias elevadas. A expansão para a região de Pereira Barreto, porém, gerou novos desafios.
“A Unidade de Pereira Barreto não oferece margem para improviso, pois estamos localizados no chamado ‘Faroeste Paulista’, uma região cujo clima é marcado por variações abruptas de precipitação e longos períodos de déficit hídrico, chegando a ciclos com apenas 800 milímetros de chuva em fases críticas da cultura.”
Expectativa de expansão da área irrigada até 2031
Diante desse cenário, a empresa iniciou, em 2019, uma série de estudos climatológicos e análises de balanço hídrico. Um dos relatórios contratados foi categórico ao apontar que, sem irrigação eficiente, a viabilidade agrícola da região poderia estar comprometida em até 30 anos. Ao mesmo tempo, esses levantamentos revelaram uma vantagem decisiva: a unidade está cercada por grandes reservatórios — Três Irmãos, no Rio Tietê, e Jupiá e Ilha Solteira, no Rio Paraná — que asseguram elevada disponibilidade hídrica para projetos de cana irrigada. O cruzamento entre risco e oportunidade deu origem ao plano de transformação que hoje orienta a companhia.
Atualmente, a Santa Adélia conta com cerca de 12 mil hectares irrigados, sendo 10.500 hectares com irrigação de salvamento e 1.500 hectares sob manejo de déficit controlado. A meta para 2031 é ampliar ambas as frentes, alcançando 15 mil hectares de salvamento e 10.500 hectares com irrigação de déficit controlado. Para isso, a empresa já iniciou a formação de novas áreas irrigadas, adquiriu máquinas e equipamentos específicos e intensificou a busca por materiais genéticos capazes de responder melhor ao novo modelo produtivo.
Santa Adélia conduz experimentos para encontrar variedades mais responsivas à irrigação
CTC 9001 BT, CTC 9001, IACCTC078008 e IACSP95-5094 se destacaram nos experimentos de irrigação com produtividades que chegaram a 200 TCH
Foto: Divulgação Santa Adélia
Para garantir o sucesso do plano de irrigação, a Santa Adélia iniciou um profundo trabalho de avaliação genética para selecionar variedades mais produtivas, responsivas e adaptadas ao manejo irrigado. Equipes percorreram unidades em diferentes regiões, estudaram geometrias de plantio, instalaram viveiros e testaram dezenas de materiais em condições reais de campo, conduzindo plantios comerciais como verdadeiros experimentos. Os resultados desse esforço foram detalhados pelo gerente agrícola Sandro Rogério de Souza durante o Encontro Técnico “Irrigação em cana-de-açúcar e seus desafios: variedades responsivas, produtividade e colheitabilidade”, realizado em setembro de 2025 pelo Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana-de-açúcar (GIFC).
Os números apresentados evidenciam o impacto da irrigação. Sob as mesmas janelas de plantio (janeiro/fevereiro) e colheita (julho/agosto), áreas de sequeiro alcançaram 92,8 toneladas por hectare (TCH), 137,1 kg/ATR e 12,8 toneladas de açúcar por hectare (TAH). Já os canaviais irrigados por gotejamento atingiram médias de 168,4 TCH, 133,3 kg/ATR e 22,45 TAH no primeiro corte. No segundo corte, o contraste cresceu: 130,8 TCH contra 78,6 TCH e 17,84 TAH contra 10,8 TAH.
CTC 9001 BT, CTC 9001, IACCTC078008 e IACSP95-5094 se destacaram entre as variedades testadas, com produtividades que chegaram a 200 TCH. Outras, como RB975201, RB985476, RB966928, CTC 9003 e CTC 9004, demonstraram forte potencial para compor futuros plantios.
Intenção de plantio 2026
Souza ressaltou que algumas variedades promissoras foram temporariamente descartadas devido a problemas fitossanitários, como ataques de estria vermelha e podridão de toco. “Lembrando que a seleção precisa considerar não apenas produtividade, mas longevidade, já que o planejamento econômico da usina prevê ciclos de até 11 cortes.”
O estudo também revelou diferenças importantes no aproveitamento hídrico das plantas: enquanto determinadas variedades necessitam de cerca de 10 mil litros de água para produzir uma tonelada de cana, outras demandam até 16 mil. Essa informação, considerada estratégica, passou a orientar decisões de plantio e deve influenciar de forma decisiva a evolução do projeto.
Por fim, Souza enfatizou que a meta de atingir 60% da área irrigada até 2031 representa uma trajetória longa, porém definitiva. O objetivo, afirmou, vai além do incremento produtivo: trata-se de assegurar a continuidade da produção em uma região de desafios climáticos crescentes, transformando limitações em oportunidades tecnológicas. “A missão agora é seguir ajustando variedades, manejos e cronogramas, ampliando nossa base irrigada ano após ano”, concluiu.

