Subsídio à gasolina pressiona competitividade do etanol
19-05-2026
Especialistas avaliam risco de perda de demanda e investimentos
A decisão do governo federal de subsidiar a gasolina em R$ 0,89 por litro reacendeu o debate sobre os impactos da política de preços sobre o mercado de biocombustíveis. Representantes do setor sucroenergético e especialistas em energia avaliam que a medida tende a reduzir a competitividade do etanol hidratado, pressionar margens das usinas e ampliar distorções na cadeia de distribuição de combustíveis.
O presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool), Edmundo Barbosa, afirma que o principal efeito imediato é o aumento do desequilíbrio entre os preços praticados nas usinas e os valores cobrados ao consumidor final nos postos. Segundo ele, o subsídio à gasolina reduz artificialmente a competitividade do etanol justamente em um momento de pressão sobre a remuneração do setor.
Dados do Indicador Semanal do Etanol Hidratado Combustível Cepea/Esalq mostram que o etanol hidratado na saída das usinas da Paraíba estava cotado a R$ 2,9801 por litro em 8 de maio, sem frete, ICMS e tributos federais. Já levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontou preço médio de R$ 4,80 por litro nos postos do estado em 9 de maio, com variação entre R$ 4,67 e R$ 5,39. No mesmo período, a gasolina comum registrou média de R$ 6,44 por litro.
A relação de preços entre os combustíveis ficou em aproximadamente 74,5% na Paraíba, patamar considerado próximo ao limite de competitividade econômica do etanol para parte dos consumidores de veículos flex. Tradicionalmente, o biocombustível tende a ser mais vantajoso quando custa até 70% do valor da gasolina, embora motores mais modernos possam manter vantagem em percentuais superiores.
Margens e consumo entram no debate
Para Barbosa, a diferença entre o preço do etanol nas usinas e o valor praticado nos postos reforça discussões sobre margens de distribuição e formação de preços no mercado de combustíveis. O executivo avalia que a competitividade do etanol também influencia diretamente o volume de vendas e o fluxo operacional dos postos.
Segundo ele, o aumento do consumo de etanol tende a elevar o giro operacional dos estabelecimentos, impulsionando não apenas o abastecimento, mas também receitas adicionais com lojas de conveniência e outros serviços. Barbosa afirma ainda que pequenas variações entre os preços da gasolina e do etanol alteram rapidamente a escolha do consumidor, devido ao tamanho da frota flex no país.
O presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, avalia que a medida provisória contraria a estratégia brasileira de ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética e na política de descarbonização. Segundo ele, o cenário atual já é marcado por preços da gasolina abaixo da paridade de importação, o que amplia a pressão sobre os combustíveis renováveis.
Nastari afirma que a combinação de subsídio à gasolina e atraso na ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina reduz a atratividade de investimentos no setor sucroenergético. O especialista destacou que, desde 1º de janeiro de 2026, o preço do etanol ao produtor acumula queda superior a 22%, enquanto o recuo ao consumidor foi de cerca de 2%.
Mistura de biocombustíveis amplia preocupação
O executivo também criticou o adiamento da elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% e do biodiesel no diesel de 15% para 16%. Segundo ele, a ampliação faria sentido em um cenário no qual o Brasil ainda depende de importações de combustíveis fósseis.
De acordo com Nastari, o país continua importando cerca de 3,5 bilhões de litros de gasolina por ano e aproximadamente 17 bilhões de litros de diesel, o que reforçaria a importância da ampliação da participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
O Sindalcool também defende que medidas emergenciais de controle de preços considerem os efeitos sobre o setor sucroenergético, apontado como estratégico para a transição energética brasileira. Segundo a entidade, o etanol pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação à gasolina.
Além do impacto ambiental, o setor sucroenergético possui peso econômico relevante na Paraíba e em outras regiões produtoras. De acordo com o sindicato, a atividade responde por cerca de 20 mil empregos diretos no estado e movimenta renda em diferentes municípios ligados à produção de cana-de-açúcar.

