Tecnologia e treinamento viram divisor de águas na logística da cana
18-12-2025
Custo, cultura e imaturidade digital limitam eficiência e reforçam a busca por rastreabilidade
Por Andréia Vital
A logística da cana-de-açúcar ainda oferece amplo espaço para ganhos de eficiência, mas a evolução depende de investimento consistente em tecnologia e de uma mudança estrutural de mentalidade. Essa foi a avaliação dominante no SugarCane Global Summit 2025, realizado em Campinas – SP, nos dias 25 e 26 de novembro, que dedicou um painel específico à logística, ao armazenamento e à rastreabilidade do açúcar e do etanol, da produção ao destino final. O encontro foi promovido pela Foodchain ID, ProTerra Foundation e LDC e teve a CanaOnline como Mídia Partner.
Plínio Junqueira, gerente Corporativo de Operações Logísticas da Atvos, apontou que a resistência do setor à digitalização é reflexo de sua tradição e da disparidade de adoção entre empresas. Para ele, inteligência artificial, internet das coisas e aprendizado de máquina tendem a ganhar protagonismo, mas encontram barreiras claras. “O maior dificultador hoje talvez seja o custo de implantação dessas tecnologias e o mindset dos empresários”, afirmou. Ao comparar com cadeias mais avançadas, reforçou o potencial do setor. “Eles têm máquinas autônomas trabalhando nas minas. Por que não máquinas autônomas trabalhando em uma colheita de cana?”, questionou.
O consultor João Chierighini, da Chieri Consulting, avaliou que o problema combina tecnologia, processos e pessoas. Segundo ele, casos de sucesso costumam vir de grandes grupos, enquanto a realidade majoritária ainda enfrenta limitações financeiras e culturais. “Quando a gente vê um case de sucesso, você está falando de um grande grupo, mas essa não é exatamente a realidade da grande maioria”, afirmou. A qualificação também aparece como ponto crítico. “Um profissional de 20 anos atrás, se colocado hoje no mesmo posto equivalente, ele não saberia trabalhar. O treinamento tem que ser constante”, disse.
A perspectiva operacional foi detalhada por Mariana Granelli, gerente comercial da Usina Granelli, que descreveu o distanciamento entre empresas mais digitalizadas e operações que ainda funcionam em lógica manual. “Hoje o operador é um mero executor. Você tem empresas que estão no 2.0 e empresas que estão no 1.0”, afirmou. Ela relatou entraves recorrentes no transporte rodoviário, na emissão de documentos como o CT-e e na limitação de alternativas multimodais em usinas do interior. Também destacou gargalos externos que impactam diretamente o fluxo industrial. Sem previsibilidade portuária e sem integração de informações, disse, o processo fica vulnerável. “Você não tem previsibilidade alguma disso. E seu estoque está enchendo, e você não sabe o que vai fazer”.
Para Junqueira, a resposta passa por sistemas integrados capazes de conectar planejamento agrícola, estimativa de produtividade, moagem, contratos comerciais, capacidade de armazenagem e programação de entrega. “Just in time seria um sonho perfeito”, afirmou, destacando que o avanço exige engajamento interno e alinhamento de propósito. “O time tem que estar comprometido com a solução”.
O painel convergiu para uma lista de prioridades imediatas, como agendamento eletrônico, check-in digital, leitura automática de placas, automação de expedição, redução de atividades manuais e rastreabilidade ponto a ponto ao longo da cadeia, envolvendo usinas, transportadoras, terminais e portos. Granelli defendeu padronização digital para reduzir a discrepância entre operadores; Chierighini reforçou o tripé cultura, treinamento e financiamento; Junqueira insistiu que a inovação é inevitável, mas depende de gestão da mudança.
Ao final, o debate deixou claro que logística seguirá como centro de custo e risco operacional e que a capacidade de medir, monitorar e reagir ao fluxo em tempo real será decisiva para diferenciar empresas que ampliam margem daquelas que perdem competitividade em um mercado crescentemente pressionado por previsibilidade, rastreabilidade e eficiência.


