Transição energética exige estratégia industrial, diz FGV Clima
29-05-2026
Estudo aponta que Brasil precisa coordenar políticas e investimentos
O Brasil reúne vantagens competitivas relevantes para avançar na transição energética, mas ainda precisa transformar esse potencial em uma estratégia industrial articulada e de longo prazo. A avaliação consta no estudo “As experiências internacionais no contexto de transição energética”, elaborado pelo FGV Clima, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), em parceria com o Instituto Itaúsa.
O relatório compara as experiências de China, Estados Unidos, Índia e União Europeia na condução da transição energética e conclui que a liderança na economia de baixo carbono depende de coordenação institucional, previsibilidade regulatória e capacidade de mobilizar investimentos públicos e privados.
Segundo o levantamento, a indústria terá papel central na estratégia brasileira. O setor respondeu por 23,4% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a R$ 2,56 trilhões em 2025, além de concentrar 31,7% do consumo final de energia e empregar 11,8 milhões de trabalhadores. O estudo ressalta que a indústria é, ao mesmo tempo, um dos segmentos mais desafiadores para descarbonização e uma das principais alavancas da transição energética.
O documento destaca ainda que o Brasil parte de uma posição favorável. Em 2024, 64,4% da energia consumida pela indústria teve origem renovável, um dos índices mais elevados entre economias industrializadas. No setor elétrico, 84% da capacidade instalada brasileira veio de fontes renováveis, quase o dobro da média mundial, de 46,2%.
Apesar disso, segmentos considerados de difícil abatimento de emissões, como siderurgia, cimento, alumínio e indústria química, ainda dependem de soluções mais complexas. O relatório afirma que a eletrificação, sozinha, não será suficiente para esses setores, exigindo investimentos em hidrogênio verde, captura e armazenamento de carbono (CCUS) e mudanças nas rotas produtivas.
Exemplos internacionais mostram caminhos distintos
A análise internacional mostra que não existe um modelo único de transição energética. A China avançou com forte coordenação estatal e domínio das cadeias de produção de energia solar, eólica e baterias. Já os Estados Unidos ampliaram incentivos por meio do Inflation Reduction Act, embora o estudo ressalte a vulnerabilidade de políticas sujeitas a mudanças eleitorais.
A Índia aparece como exemplo de país que ainda depende do carvão, mas amplia investimentos em hidrogênio verde e manufatura local de equipamentos renováveis. Na União Europeia, o destaque foi para a criação de metas vinculantes e mecanismos regulatórios, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que desde o início de 2026 passou a taxar produtos industriais com elevada pegada de carbono.
Segundo o estudo, o novo mecanismo europeu já gera impactos sobre exportações brasileiras de aço e alumínio e reforça a necessidade de adaptação da indústria nacional às exigências globais de descarbonização.
Para a coordenadora do FGV Clima e autora do relatório, Amanda Motta Schutze, a transição energética representa uma oportunidade estratégica para o Brasil ampliar competitividade e participação nas cadeias globais de baixo carbono.
A pesquisadora afirma que o desafio não está apenas na adoção de tecnologias mais limpas, mas também na capacidade de transformar vantagens naturais em inovação industrial, geração de empregos qualificados e atração de investimentos.
Biocombustíveis e hidrogênio verde ganham destaque
O estudo aponta que o Brasil reúne condições favoráveis para liderar tecnologias consideradas estratégicas na nova economia energética. Entre elas estão o hidrogênio verde, os biocombustíveis avançados, o armazenamento de energia em baterias e os projetos de captura de carbono.
No caso dos biocombustíveis, o relatório destaca o potencial de crescimento do combustível sustentável de aviação (SAF) e do diesel verde para transporte pesado, áreas em que a eletrificação enfrenta limitações técnicas. O documento também ressalta a trajetória histórica do Brasil na produção de etanol e outros combustíveis renováveis.
Outro ponto considerado estratégico é a disponibilidade de minerais críticos para tecnologias limpas. O país concentra as maiores reservas mundiais de nióbio e possui depósitos relevantes de lítio, grafite e terras raras, insumos essenciais para baterias e equipamentos de geração renovável.
Governança é apontada como principal desafio
Embora reconheça avanços recentes na formulação de políticas públicas, o relatório avalia que o principal gargalo brasileiro está na coordenação dos instrumentos já existentes.
Entre as iniciativas citadas estão a Política Nacional de Transição Energética (PNTE), o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a Taxonomia Sustentável Brasileira, o Programa de Aceleração da Transição Energética (PATEN) e o Novo PAC, que prevê R$ 466,7 bilhões para projetos ligados à transição energética entre 2023 e 2026.
Segundo o estudo, a falta de integração entre essas políticas ainda dificulta a compreensão de objetivos, acesso aos programas e alinhamento entre governos, empresas e investidores. A conclusão é que o Brasil precisará combinar governança consistente, financiamento de longo prazo e estratégia industrial para transformar a vantagem renovável em liderança econômica de baixo carbono.
Fonte: Canaoeste

