Transição energética se consolida como estratégia de mercado e etanol vira peça-chave
26-01-2026
A adoção de fontes renováveis, a eficiência no uso de recursos e a redução das emissões de carbono passaram a integrar as rotinas operacionais
Por Simon Nascimento
O avanço das discussões em torno da descarbonização das atividades econômicas fez com que o investimento em ações de transição energética deixasse de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma estratégia de mercado entre grandes empresas. A adoção de fontes renováveis, a eficiência no uso de recursos e a redução das emissões de carbono passaram a integrar as rotinas operacionais e já impactam diretamente a sustentabilidade dos negócios.
Exemplos e modelos do que vem sendo implementado por grandes players do mercado estarão na programação do O TEMPO Seminários – Transição Energética, que será realizado no dia 27 de janeiro, em Belo Horizonte. Em um dos painéis, será debatido o papel da indústria na busca por fontes renováveis e como a energia limpa redefine a competitividade empresarial.
No mercado, especialistas apontam que empresas que investem em energia limpa obtêm ganhos operacionais relevantes ao longo do tempo. A geração própria de energia, por exemplo, reduz a dependência de tarifas voláteis e aumenta a previsibilidade dos custos. Nesse contexto, o etanol tem se destacado como alternativa estratégica em diversos setores.
O presidente da Siamig Bioenergia, Mário Campos, destaca que o biocombustível derivado da cana-de-açúcar vem se consolidando como um dos principais pilares da transição energética no país.
“Em um contexto global de descarbonização, redução de emissões e busca por soluções renováveis, o etanol impulsiona não apenas o setor de transportes, mas toda uma cadeia produtiva que conecta o agro à indústria, gera inovação, amplia a competitividade e abre novas oportunidades para Minas Gerais e para o Brasil, tanto no mercado interno quanto no externo”, afirmou.
Segundo Campos, o Brasil possui hoje o maior programa de substituição de combustíveis fósseis, em termos percentuais, do mundo. Cerca de 45% da gasolina comercializada no país já é substituída por etanol — anidro e hidratado. O nível de mistura do etanol anidro na gasolina chegou a 30% e pode alcançar 35%, conforme previsto na Lei do Combustível do Futuro.
“Além disso, o etanol hidratado está disponível na maioria dos postos de combustíveis do país. O etanol reduz em até 90% as emissões de gases de efeito estufa quando comparado à gasolina”, completou.
Campos também ressaltou que o etanol se apresenta como matéria-prima para a produção de outros combustíveis voltados a diferentes modais, como a aviação, por meio do SAF (Sustainable Aviation Fuel), e o transporte marítimo. “A partir da vinhaça, subproduto da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, é possível produzir biometano, uma alternativa importante para a descarbonização do transporte pesado, especialmente caminhões e ônibus”, acrescentou.
Um dos players com forte aposta no etanol é a Stellantis, grupo que detém marcas como Fiat, RAM, Jeep e Peugeot. Por meio da tecnologia Bio-Hybrid, que combina motores elétricos e a combustão, o biocombustível ganha espaço em detrimento da gasolina. “O etanol ocupa um papel central por ser um combustível renovável, altamente eficiente na descarbonização e integrado à economia de baixo carbono, enquanto a tecnologia Bio-Hybrid se consolidou como uma solução imediata e escalável, alinhada à realidade do mercado brasileiro”, destacou a companhia.
Desde 2024, a Stellantis também passou a abastecer 100% com etanol os veículos flex na saída de fábrica. A iniciativa começou no Polo Automotivo de Goiana (PE) e está em expansão para as plantas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. “A ação reforça o uso de uma matriz renovável, com elevada eficiência na redução de emissões, e integra um conjunto mais amplo de iniciativas que combinam soluções locais, inovação tecnológica e redução consistente da pegada de carbono”, acrescentou a empresa.
Mineradoras e siderúrgicas miram geração própria de energia
O investimento em geração de energia própria também integra o escopo de ações de grandes companhias. A Vale já alcançou 84% de eletricidade proveniente de fontes renováveis e tem a meta de atingir 100% até 2030. “No Brasil, o resultado foi impulsionado principalmente pelo complexo solar Sol do Cerrado, em Jaíba (MG), um dos maiores da América Latina, responsável por cerca de 16% da energia consumida pela companhia no país, além de contratos de longo prazo para a aquisição de energia renovável”, informou a mineradora.
A empresa também realiza testes com caminhões elétricos e com o uso de biodiesel B30 e B50 em veículos pesados. Desde 2020, os investimentos em descarbonização somam R$ 7,4 bilhões. Na siderurgia, a ArcelorMittal colocou em operação, em novembro, o parque eólico do Complexo Babilônia Centro, na Bahia, com capacidade de geração de 535,5 MW.
O projeto, desenvolvido em parceria com a Casa dos Ventos, recebeu aporte de R$ 4,2 bilhões. Em Minas Gerais, a companhia concluiu a construção de um parque solar em Paracatu, no Noroeste do Estado, com investimento de aproximadamente R$ 895 milhões.
Atualmente, cerca de 70% do aço produzido pela ArcelorMittal no Brasil tem origem em sucata metálica. “A empresa não apenas recicla, mas também investe em logística reversa e parcerias para ampliar a circularidade, com foco no objetivo de zero resíduo em aterros, tornando o aço um vetor-chave para a descarbonização global”, informou a companhia.
Outra gigante do setor, a Usiminas, trabalha para reduzir em 15% as emissões de carbono por tonelada de aço bruto produzido até 2030. Para atingir a meta, aposta em eficiência energética, maior uso de fontes renováveis e cogeração. “Entre as principais iniciativas estão a reforma do Alto-Forno 3, que trouxe ganhos relevantes de eficiência operacional, redução do consumo de combustíveis e maior estabilidade do processo”, destacou a empresa.
A Usiminas também busca ampliar o uso de sucata metálica, aumentando a circularidade de materiais, além de investir em projetos estruturados de eficiência energética, aproveitamento de gases siderúrgicos para cogeração, digitalização de processos e diversificação da matriz energética, com maior participação de fontes renováveis, como a energia solar.
Fonte: O Tempo

