Um em cada quatro hectares do Brasil pegou fogo nos últimos 39 anos
19-06-2024

O bioma que mais queimou proporcionalmente a sua área foi o Pantanal, com 9 milhões de hectares — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
O bioma que mais queimou proporcionalmente a sua área foi o Pantanal, com 9 milhões de hectares — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Entre 1985 e 2023, foram queimados um total de 199,1 milhões de hectares, ao menos uma vez, no Brasil

Por Isadora Camargo — São Paulo

No Pantanal mato-grossense, queimadas avançam a partir do município de Corumbá (MS) e já ultrapassam 350 mil hectares atingidos este ano, segundo o governo do Estado. A alta da área queimada, em comparação ao ano passado, é de 1.800%.

Esse é um dos focos de incêndio que vivencia o país e que está no mapeamento de dados da Coleção do MapBiomas Fogo sobre a extensão de terras incendiadas no país, divulgado nesta terça-feira (18/6). Segundo a entidade, um em cada quatro hectares do território brasileiro pegaram fogo em um intervalo de 39 anos.

Entre 1985 e 2023, foram queimados um total de 199,1 milhões de hectares, ao menos uma vez, no Brasil. Isso representa quase um quarto do território nacional (23%). Desse total de hectares mapeados, 68,4% afetado pelo fogo foi de vegetação nativa e os outros 31,6% em área antropizada, como pastagem e agricultura.

"Quase metade da área queimada (46%) está concentrada em três estados: Mato Grosso, Pará e Maranhão, e 60% de toda área queimada aconteceu em imóveis privados”, informa o MapBiomas.

O bioma que mais queimou proporcionalmente a sua área em 39 anos foi o Pantanal, com 9 milhões de hectares. "Embora sejam apenas 4,5% do total nacional, são 59,2% do bioma”, informa o levantamento. Um quarto das áreas queimadas nesse bioma possui entre 10 mil e 50 mil hectares.

Em 2023, foram mais de 600 mil hectares queimados no Pantanal, 97% dos quais ocorreram entre setembro e dezembro do ano passado. Corumbá (MS) está entre os três municípios que mais queimaram no período analisado.

O Pantanal, que é adaptado ao fogo, enfrenta incêndios intensos principalmente devido às secas prolongadas e, em função das dificuldades de contenção das queimadas, qualquer foco pode gerar impactos significativos na fauna e flora locais, afirma o MapBiomas.

O mapeamento da entidade também calculou que, a cada ano, uma média de 18,3 milhões de hectares, ou 2,2% do país, são afetados pelo fogo. É durante a estação de seca, entre julho e outubro, que se concentra 79% das ocorrências dos incêndios.

Apesar do Pantanal ser o bioma proporcionalmente mais afetado pelo fogo, é o Cerrado que concentra a maior área queimada durante os 39 anos pesquisados, seguido do bioma amazônico.

No Cerrado, foram 88,5 milhões de hectares, ou 44% do total nacional. Na Amazônia, queimaram 82,7 milhões de hectares (42%).

"Embora Cerrado e Amazônia tenham números absolutos semelhantes de área queimada, esses biomas têm tamanhos diferentes. Por isso, no caso do Cerrado, a área queimada equivale a 44% de seu território; na Amazônia, esse percentual foi de 19,6%, ou seja, um quinto da extensão do bioma”, explica o relatório do MapBiomas. 

De acordo com Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo e diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a Amazônia enfrenta um risco elevado com a ocorrência de incêndios devido à sua vegetação não ser adaptada ao fogo, "agravando o nível de degradação ambiental e ameaçando a biodiversidade local, enquanto a seca histórica e as chuvas insuficientes para reabastecer o lençol freático intensificam a vulnerabilidade da região”, explica em nota.

No Cerrado, como há altas taxas de desmatamento, o risco de descontrole dos incêndios é maior, alterando o regime natural do fogo. “Essas mudanças impactam negativamente o equilíbrio ecológico, pois o fogo, embora seja um componente natural do Cerrado, está ocorrendo com uma frequência e intensidade que a vegetação não pode suportar”,  detalha Vera Arruda, coordenadora técnica do MapBiomas Fogo e pesquisadora do IPAM.

Na Amazônia, o fogo é causado principalmente pelo desmatamento e práticas agrícolas, enquanto no caso do Cerrado, o bioma é adaptado ao fogo, pois "evolutivamente ele depende de queimadas naturais e controladas para manter seu ecossistema”, diz o levantamento. A preocupação, entretanto, é em relação à mudança do regime natural de fogo relacionada à expansão agropecuária e uso indevido do fogo.

Juntas, as regiões do Cerrado e da Amazônia concentraram cerca de 86% da área queimada pelo menos uma vez no Brasil no período analisado, em 39 anos.

Na Caatinga, a área queimada entre 1985 e 2023 foi de quase 11 milhões de hectares. Isso equivale a 6% do total nacional e 12,7% do  bioma. Já na Mata Atlântica, foram cerca de 7,5 milhões de hectares (4% do total nacional e 6,8% em relação à extensão do bioma). "Sua fragmentação florestal e urbanização vêm aumentando a vulnerabilidade a incêndios, que ameaçam sua biodiversidade”, informa o MapBiomas. 

No Pampa, foram 518 mil hectares, ou 2,7% de seu território.  "Nesse bioma, onde predomina a vegetação campestre, as queimadas são pequenas e pouco frequentes, já que o seu uso para o pastejo dos rebanhos bovinos resulta em baixo acúmulo de biomassa inflamável. As maiores queimadas costumam ocorrer em anos do fenômeno climático La Niña”, explica o relatório. 

Ações no Pantanal

O governo de Mato Grosso iniciou ontem a Operação de Combate aos Incêndios Florestais no Pantanal para tentar combater o fogo antecipadamente. Com isso, foi implementado o período proibitivo do uso do fogo no Pantanal, antecipado em duas semanas em razão das condições climáticas da região, com previsão de agravamento da seca para os próximos meses.

A exceção cabe para fogos preventivos, cujo objetivo é diminuir a propagação de grandes incêndios na região, com autorização e orientação do Corpo de Bombeiros e Secretaria de Meio Ambiente do Estado.

Com 50 profissionais, equipes de brigadas de incêndio e bombeiros estão distribuídas para cobrir, em especial, as unidades de conservação, como os Parques Estaduais Encontro das Águas e do Guiará, além da Reserva de Patrimônio Nacional do Sesc Pantanal.

“Além da distribuição de equipes, também estaremos em campo alertando a população para não usar o fogo sob nenhuma hipótese. Isso é crime, seja na zona rural ou urbana”, informou, em nota, o comandante-geral dos Bombeiros, coronel Alessandro Borges.

No período proibitivo, o governo de Mato Grosso disponibilizará, também, seis aviões para combate direto ao fogo, e acompanhamento da região da capital Cuiabá por satélite.

Emergência ambiental

De acordo com o mapeamento feito pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio do Núcleo de Geotecnologias (NUGEO), há sete pontos de ignição que geraram aproximadamente 12.387,24 hectares de incêndios florestais ocorridos entre os dias 10 de maio e 10 de junho de 2024 no Pantanal, período em que o Estado decretou emergência ambiental.

Os focos de queimadas foram detectados em seis imóveis rurais e uma área sem registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Os incêndios atingiram cerca de vinte propriedades rurais no Pantanal sul-mato-grossense.

No levantamento de cicatrizes de incêndios florestais no Bioma Pantanal, 8.836,35 hectares estão localizados no Mato Grosso do Sul As áreas afetadas continuam a sofrer com a propagação dos incêndios, uma vez que o fogo ainda não foi completamente controlado, segundo o Núcleo.

Fonte: Globo Rural