Uma escada que continua subindo
27-08-2026
Novo El Niño está se desenvolvendo em um planeta que praticamente não voltou ao patamar de temperatura anterior ao último grande evento, de 2023 e 2024
O site britânico especializado em clima Carbon Brief publicou uma das explicações mais didáticas até agora sobre a relação entre o atual El Niño e o aquecimento global. Os dados ajudam a visualizar o que está acontecendo como uma escada que continua subindo: enquanto a mudança climática eleva a temperatura de fundo, grandes El Niños provocam saltos temporários para patamares ainda mais altos.
O evento de 2026 começa sobre uma linha de base excepcionalmente quente, depois de 2023, 2024 e 2025 terem sido os três anos mais quentes já registrados. O último grande El Niño começou justamente em 2023 e contribuiu para um salto da temperatura global que culminou no recorde de 2024, primeiro ano completo a ficar cerca de 1,5°C acima do período pré-industrial.
Quando o fenômeno terminou, houve algum recuo, mas não uma volta às temperaturas anteriores: mesmo com a influência de uma La Niña fraca, 2025 ficou praticamente empatado com 2023 como o segundo ano mais quente já registrado.
Há um atraso nessa dinâmica. Em geral, uma variação de 1°C na temperatura da região Niño 3.4 (principal área do Pacífico usada para acompanhar a intensidade do fenômeno) está associada a cerca de 0,1°C de variação na temperatura média global, com uma defasagem de três a seis meses, segundo análise da Berkeley Earth citada pelo Carbon Brief.
Esse atraso ajuda a explicar um padrão observado nos últimos grandes El Niños: os eventos iniciados em 1997, 2015 e 2023 contribuíram para recordes globais de temperatura, respectivamente, em 1998, 2016 e 2024.
Agora, a história pode se repetir a partir de um degrau ainda mais alto. O Met Office do Reino Unido considera muito provável que 2027 supere 2024 como o ano mais quente já registrado. Ainda é cedo para saber qual será a magnitude desse salto, mas as primeiras projeções e análises independentes colocam no horizonte temperaturas globais em torno de 1,7°C acima do período pré-industrial.
O número aparece em análises distintas, com metodologias e graus de incerteza variados. Pesquisadores da Universidade de Graz, na Áustria, projetam uma média anual de 1,71°C no ano que vem; o climatologista James Hansen, ex-diretor do instituto de estudos climáticos da NASA e um dos pioneiros da ciência do aquecimento global, estimou junto com colegas um aquecimento próximo de 1,7°C, embora utilizando metodologia e período de referência diferentes. E Zeke Hausfather, da Berkeley Earth, disse à Nature que um 2027 chegando a 1,7°C “não está fora do campo das possibilidades”.
El Niño se estabiliza no maior patamar do ano: depois de subir de forma contínua desde maio, o aquecimento do Pacífico parou de crescer nas duas últimas leituras da NOAA. O índice está a 0,2°C de entrar na faixa de "muito forte", patamar que só o El Niño de 2015-16 alcançou e a partir do qual os efeitos sobre chuva, seca e temperatura no Brasil tendem a se intensificar.
Seca avança e cobre mais da metade do país: a seca avançou em quatro das cinco regiões em julho, e o Sudeste é o mais atingido, com quase 90% do território. Só o Sul escapou, e de forma drástica: saiu de quase três quartos da área sob seca para praticamente nada em um mês. Essa inversão entre Norte e Sul é o padrão típico do El Niño no Brasil e expõe regiões diferentes a riscos opostos ao mesmo tempo, com falta d'água no Centro-Norte e chuva excessiva no Sul.
Rios da Amazônia continuam baixando, com uma exceção: dez das onze estações monitoradas recuaram na última semana. O rio Acre, em Rio Branco, é o único que subiu, interrompendo a sequência de quedas anteriores e retornando à faixa de normalidade. Roraima concentra o sinal de alerta, com o rio Branco em suas menores cotas para esta época do ano. Na Amazônia os rios são a estrada: quando baixam, o transporte de alimentos, combustível, remédios e pacientes encarece ou simplesmente para, e comunidades ribeirinhas ficam isoladas. As demais bacias seguem dentro da faixa histórica.
Reservatórios do Sudeste caem pela quarta semana seguida: o subsistema que concentra a maior parte da energia armazenada do país recua desde o fim de julho e já está abaixo de 60%. Reservatório baixo significa acionar termelétricas para completar a geração, o que encarece a conta de luz em todo o país. No Nordeste o risco é outro: os açudes acompanhados aqui são de abastecimento humano, numa região historicamente mais exposta à seca e aos efeitos do El Niño, e já operam perto da metade da capacidade.
Julho foi mais quente que a média em todo o país: o Centro-Oeste registrou o maior desvio de temperatura. Na chuva, o país se dividiu ao meio: déficit no Norte e excedente no Sul. É a assinatura clássica do El Niño no Brasil, que empurra a chuva para o Sul e a retira do Norte e do Nordeste.
Chuva abaixo da média em quatro regiões até outubro: só o Sul deve receber mais chuva que o normal, e o calor deve ficar acima da média em todas as regiões. O trimestre é a janela de plantio da próxima safra: em São Paulo e em Minas Gerais, a soja não irrigada corre risco de atraso e replantio, e no café a florada pode desencontrar. No Centro-Oeste o tempo seco tem efeito oposto e favorece a colheita. O mesmo período concentra o pico da temporada de queimadas e leva os reservatórios ao nível mais baixo do ano, antes das chuvas de novembro.
Fogo em agosto já supera o do ano passado: agosto inverteu a tendência do ano, que até julho vinha abaixo de 2025, e o mês sozinho já responde por mais de um terço de tudo que queimou em 2026. A Amazônia passou o Cerrado e concentra a maior parte dos focos do mês, com Mato Grosso, Pará e Amazonas liderando entre os estados. A vantagem sobre 2025 vem encolhendo: era de 23% até 21 de agosto e caiu para 9% até o dia 24, porque o fim de agosto do ano passado foi especialmente intenso.
Tempestades desalojam mais de 5 mil pessoas em agosto: o número quase dobrou em uma semana, com o Rio Grande do Sul concentrando a maior parte dos atingidos. Só em agosto, 44 municípios de oito estados tiveram decreto de emergência por seca ou estiagem reconhecido pelo governo federal, somando cerca de 1 milhão de moradores. No acumulado do ano, os municípios sob decreto de seca somam mais de 14 milhões de pessoas.

