Usinas de etanol de trigo criam nova demanda para cereal no RS
21-01-2026
CB Bioenergia, instalada na cidade de Santiago, começou a operar este mês, e planta da Be8, com aporte de R$ 1 bilhão, está em construção em Passo Fundo
Por Danton Boatini Júnior — São Paulo
Cultivado no inverno e historicamente marcado por dificuldades de comercialização, o trigo vive um momento de novas perspectivas no Rio Grande do Sul, maior produtor nacional do cereal. Em um movimento que combina energia renovável, indústria e novos subprodutos, empreendimentos no Estado apostam no cereal como alternativa para diversificar mercados, valorizar o cultivo local, além de reduzir a dependência de produtos de outras regiões.
Um desses empreendimentos é o da CB Bioenergia, em Santiago (RS), que acaba de receber autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para a operação e se tornou a primeira usina de etanol de trigo do país. A unidade, que demandou investimento de R$ 100 milhões, deve processar cerca de 100 toneladas de trigo por dia, o que irá gerar 40 mil litros de etanol.
Neta e filha de produtores de trigo, a diretora da empresa, Maria Eduarda Bonotto, afirma que a ideia surgiu a partir da dificuldade na hora de comercializar o cereal cultivado no inverno. “Chegava no final [na colheita] e a gente comercializava esse trigo com um preço muito irrisório, porque às vezes tem muitos descontos por qualidade. É diferente de outras commodities, como a soja”, diz.
Então, a família voltou os olhos para o que acontecia no Centro-Oeste do país, onde os problemas de comercialização do milho foram enfrentados com os investimentos em usinas de etanol do grão — o que representou uma valorização para o cereal de verão.
Os Bonotto plantam cerca de 36 mil hectares de trigo. Inicialmente, é esse grão que será utilizado para processamento na usina, mas cargas de produtores da região deverão ser adquiridas no futuro.
Segundo Maria Eduarda, o trigo será avaliado pela quantidade de amido, de modo que poderá ser utilizado mesmo se tiver pH (peso hectolitro) inferior, garantindo uma alternativa ao produtor que não tem onde comercializar o grão de menor qualidade.
Uma tonelada de trigo produz cerca de 400 litros de etanol e 300 quilos de DDGS (grãos secos solúveis de destilaria, usados na alimentação animal). A usina também poderá trabalhar com outras culturas, tanto de inverno quanto de verão, que também contenham amido, como cevada, centeio, sorgo, triticale, milho e arroz, de acordo com a diretora da empresa .
Sem competição
A CB Bioenergia irá produzir etanol hidratado, que pode ir para a bomba de etanol, mas a ideia da empresa é transformá-lo em álcool neutro, que é utilizado em cosméticos, bebidas e álcool em gel, por exemplo — diferente do anidro, que é misturado à gasolina.
Por isso, Maria Eduarda Bonotto não vê o etanol de trigo competindo com o de milho e o de cana. “Estamos mirando um mercado diferente, não queremos competir na bomba de gasolina”, resume.
Outros projetos
Outro empreendimento é da Be8, uma das maiores produtoras de biocombustíveis do país. A usina de etanol de trigo da empresa, com investimento de R$ 1 bilhão, começou a ser construída em julho de 2024 em Passo Fundo. A obra está 40% concluída e a previsão é de que a planta comece a operar em dezembro deste ano.
A usina será flexível e vai produzir etanol anidro (que pode ser adicionado na gasolina) ou hidratado (consumo direto).
Segundo o vice-presidente de operações da Be8, Leandro Zat, o projeto foi motivado pelo fato de o Rio Grande do Sul ter de buscar fora do Estado todo o volume consumido de etanol hidratado e anidro e para ser uma opção para as culturas de inverno.
O projeto da Be8 visa não apenas a produção de etanol, mas também do glúten vital, um melhorador de farinhas. A partir disso, a iniciativa permitirá “conciliar o alimento e a energia”.
O Brasil importa 100% de sua demanda por glúten vital, cerca de 24 mil toneladas por ano. O plano da empresa é produzir 26,9 mil toneladas por ano, o que permite atender ao mercado brasileiro e exportar, segundo Zat. “Esse melhorador é o que permite às farinhas terem a capacidade de uso em mercados de diferentes aplicações: de biscoitos especiais, panetones, por exemplo. É um melhorador das farinhas de forma natural e permite uma qualidade maior dos produtos finais”, explica.
A unidade deve ter capacidade de processamento de 1,5 mil toneladas por dia de matéria-prima, ou 525 mil toneladas por ano. Isso deve gerar 220 milhões de litros de etanol, o que corresponde a 23% da demanda do Rio Grande do Sul. A planta também deve produzir 150 mil toneladas de DDGS.
Para atender à produção do glúten vital, a Be8 pretende utilizar um trigo de qualidade. “Temos algumas cultivares mais voltadas a esse projeto, que poderão ser encaixadas de acordo com a condição temporal, mas podendo sim ser abastecido pelo trigo produzido para panificação”, diz Zat. A ideia é usar matéria-prima local.
Mercado
Os projetos de etanol de trigo criam perspectiva de liquidez para as culturas de inverno, segundo analistas. “O etanol de trigo deverá ser uma grande fonte de demanda de trigo gaúcho e dará mais segurança aos produtores, porque será uma demanda continuada e com bom preço”, avalia Luiz Carlos Pacheco, da TF Consultoria Agroeconômica.
Para ele, a nova demanda irá impactar no preço do trigo, mas concorrerá mais especificamente com a exportação e com o trigo destinado à ração, pois não exigirá um grão de alta qualidade.
O analista de trigo da Safras & Mercado, Élcio Bento, observa que o Rio Grande do Sul produz cerca de 3,5 milhões de toneladas do cereal e exporta 1,6 milhão. “A precificação desse trigo para etanol, a princípio, é pela paridade de exportação. Não significa necessariamente que vai haver recuperação forte de preços”, avalia. Por outro lado, a maior procura pode motivar o produtor a plantar, diz.
Fonte: Globo Rural

