Vendas de usinas tiveram impacto de R$ 460 milhões para a Raízen
27-02-2026
Desde novembro de 2024, empresa já concluiu a venda de cinco ativos adquiridos da Biosev
Por Camila Souza Ramos — São Paulo
A Raízen teve um ganho, até agora, de R$ 610 milhões com a venda de usinas que havia comprado da Biosev, em relação ao valor contábil desses ativos, segundo informações do balanço do terceiro trimestre da safra 2025/26. Ainda assim, devido à “baixa” desses ativos no patrimônio da empresa (impairment), que ultrapassou R$ 1 bilhão, o impacto dessas transações no resultado líquido na safra foi negativo em R$ 460 milhões.
No último trimestre, a companhia divulgou um prejuízo contábil de R$ 15 bilhões. Porém, as vendas de ativos em geral ainda foram mais impactadas pelos desinvestimentos dos negócios de energia do que com as de usinas de cana.
Desde novembro de 2024, a joint venture entre Cosan e Shell já concluiu a venda de cinco ativos adquiridos da Biosev: os canaviais da Usina MB, a Usina Leme, os canaviais da Usina Santa Elisa, e as indústrias e canaviais das usinas Passatempo e Rio Brilhante. Os ativos industriais da MB e Santa Elisa não foram vendidos, mas “hibernados” — paralisados por tempo indeterminado. A empresa também vendeu a Usina Continental, mas a transação não foi concluída até dezembro.
A receita com as vendas de usinas já somou R$ 2,8 bilhões, o que ficou cerca de R$ 600 milhões acima do valor que eles tinham no momento das alienações. Esse resultado tem efeito contábil e reflete uma desvalorização dos ativos nos últimos anos. Ou seja, não significa que a empresa teve lucro com a venda das usinas, observam analistas.
Na prática, o preço das usinas também recuou em relação ao valor da compra da Biosev. Na época, o múltiplo da compra ficou acima de US$ 60 por tonelada de cana de capacidade de moagem. Nas operações de venda realizadas recentemente, o múltiplo ficou na faixa dos US$ 40 a US$ 50 a tonelada.
A venda que mais gerou ganhos foi a das lavouras de cana da Usina Santa Elisa. Tida então como a “joia da coroa” na aquisição da Biosev, a venda desses canaviais rendeu à Raízen um ganho de R$ 878,3 milhões na linha de “resultado na alienação de ativos”, conforme o último balanço. Apesar disso, a empresa registrou uma perda contábil de R$ 798 milhões no acumulado da safra devido principalmente à hibernação da indústria.
A companhia acertou a venda de cerca de 60 mil hectares de canaviais — entre produção própria e contratos de fornecedores — com seis empresas. A Raízen anunciou inicialmente que a operação chegaria até a R$ 1,045 bilhão. Como nem todos os contratos de arrendamento e parceria puderam ser transferidos, a venda foi concluída em R$ 910,8 milhões.
Também rendeu fruto positivo a venda da Usina Leme, feita ao grupo Ferrari e à sementeira Agromen. O valor que a Raízen obteve com a venda da indústria e de seus canaviais foi de R$ 322 milhões, e o resultado descontado do ajuste contábil foi positivo em R$ 44,7 milhões. Porém, a baixa do ativo gerou um impairment maior, de R$ 53,4 milhões.
Outro ativo herdado da Biosev que rendeu ganho contábil à Raízen foi o canavial da Usina MB, em Morro Agudo (SP). Essas lavouras foram vendidas à Usina Alta Mogiana na safra 2024/25. No balanço daquela safra, a companhia não discriminou o ganho somente com esse ativo, mas reportou uma receita de R$ 328,9 milhões.
Ao mesmo tempo, a Raízen registrou uma provisão de perda de R$ 327,2 milhões referente à soma dos ativos de Morro Agudo e do Bioparque Santa Helena, que fora hibernado. Embora a empresa não tenha detalhado quanto dessa perda contábil refere-se a cada ativo, é possível concluir que o resultado líquido (valor de venda menos valor contábil) da venda da Usina MB tenha ficado positivo em, no mínimo, R$ 1,8 milhão.
Já a venda das usinas Passatempo e Rio Brilhante para o grupo Cocal teve resultado negativo, o que reduziu os ganhos obtidos com os outros desinvestimentos em usinas no trimestre. Conforme o último balanço, apenas a alienação desses ativos — indústrias e canaviais — resultou em perda de R$ 15,040 milhões e de R$ 297,819 milhões, respectivamente. Além disso, o impairment desses ativos acrescentou um impacto negativo conjunto de R$ 232 milhões.
A Raízen adquiriu a Biosev em 2021 por R$ 3,6 bilhões — na operação os então acionistas da Biosev ficaram com ao menos 3,5% da compradora. Com o negócio, a joint venture da Cosan e da Shell passou de 26 para 35 unidades industriais, agregando uma capacidade de moagem anual de 32 milhões de toneladas de cana.
As vendas das usinas pela Raízen ocorrem num momento em que os preços de açúcar estão pressionados e os juros altos, o que contribui para depreciar mais os ativos. “Economicamente, não seria um bom momento para vender ativos”, avalia Willian Hernandes, sócio da FG/A. Porém, ele ressalta que as usinas herdadas da Biosev não eram capazes de gerar margem suficiente para cobrir o gasto com juros.
Em suas interações com o mercado, a Raízen vem defendendo que as vendas são parte de um esforço de “simplificação de portfólio” e uma forma de levantar recursos para amortizar sua dívida bilionária. Procurada, a empresa não comentou.
Fonte: Globo Rural

