Ventos extremos e El Niño reforçam a urgência da agroecologia diante da crise climática
03-08-2026

Especialista detalha como esse modelo fortalece a agricultura familiar, recupera ecossistemas e aumenta a capacidade de adaptação da produção de alimentos 

Os ventos intensos registrados em diferentes regiões do Brasil nas últimas semanas, somados à previsão de um novo episódio de El Niño e à ocorrência cada vez mais frequente de secas prolongadas, enchentes e ondas de calor, reforçam um cenário que já deixou de ser uma previsão para se tornar realidade: a emergência climática está transformando a forma como produzimos alimentos e exigindo sistemas agrícolas mais preparados para enfrentar eventos extremos. Nesse contexto, a agroecologia tem se comprovado como um modelo capaz de tornar a produção mais resiliente às mudanças climáticas.

Segundo a especialista, a agroecologia vem sendo apontada por pesquisadores e organismos internacionais como uma estratégia importante para enfrentar a crise climática. Ao contrário dos sistemas baseados na monocultura, que concentram poucas espécies e frequentemente resultam em áreas com baixa biodiversidade e maior vulnerabilidade ambiental, os sistemas agroecológicos promovem diversidade de plantas, árvores e organismos vivos, favorecendo o equilíbrio ecológico e reduzindo naturalmente a incidência de pragas e doenças.

"A produção orgânica representa um importante avanço para uma agricultura mais sustentável, mas a agroecologia amplia esse olhar. Ela não se limita ao produto final ou à ausência de determinados insumos: busca organizar todo o ecossistema onde acontece a produção de alimentos. Isso significa promover a diversificação de culturas, conservar o solo, proteger nascentes e rios, recuperar a biodiversidade, preservar as matas ciliares e fortalecer os ciclos naturais. Quando o ecossistema está equilibrado, a necessidade de intervenções é muito menor, tornando a produção mais resiliente e sustentável", explica Carla Guindani, CEO do Raízes do Campo, projeto que conecta agricultores familiares ao mercado.

Os benefícios também aparecem em duas frentes essenciais diante das mudanças climáticas: mitigação e adaptação.

Na mitigação, a agroecologia contribui para aumentar o armazenamento de carbono no solo por meio do acúmulo de matéria orgânica, reduzir o uso de fertilizantes e defensivos químicos, preservar a vegetação nativa, proteger a biodiversidade e diminuir as emissões de gases de efeito estufa.

Já na adaptação, os resultados são percebidos diretamente na capacidade de resposta dos sistemas produtivos aos eventos extremos. Solos ricos em matéria orgânica funcionam como uma esponja natural, absorvendo e armazenando muito mais água do que áreas degradadas. Isso reduz os impactos tanto das secas prolongadas quanto das chuvas intensas.

Além dos benefícios ambientais, o modelo também fortalece a agricultura familiar e os mercados locais, promovendo geração de renda, permanência das famílias no campo e sistemas alimentares mais diversificados. Segundo Carla, esse aspecto também está relacionado aos desafios climáticos enfrentados pelas cidades.

"O modelo de ocupação do território influencia diretamente a forma como lidamos com as mudanças climáticas. A concentração de terras e o êxodo rural levam ao crescimento acelerado e muitas vezes desordenado das cidades, ampliando áreas impermeabilizadas e aumentando a vulnerabilidade às enchentes e às ondas de calor. Quando fortalecemos a agricultura familiar e os sistemas agroecológicos, também contribuímos para um desenvolvimento territorial mais equilibrado."

Para a CEO do Raízes do Campo, fenômenos climáticos como o El Niño, que tendem a intensificar eventos extremos, evidenciam a necessidade de repensar a forma como são ocupados e manejados os territórios. Embora a agroecologia não seja capaz de impedir esses fenômenos, ela ajuda a reduzir seus impactos ao tornar os sistemas produtivos mais resilientes e contribuir para a regeneração dos ecossistemas, a conservação dos recursos naturais e o fortalecimento da segurança alimentar.

"Não existe uma solução única para a crise climática. Mas sabemos que sistemas produtivos biodiversos, com solo vivo, água protegida e florestas conservadas são muito mais resistentes aos extremos climáticos. A agroecologia não impede que esses fenômenos aconteçam, mas ajuda a reduzir seus impactos sobre a produção de alimentos, fortalece a segurança alimentar e contribui para regenerar os ecossistemas. Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas, essa capacidade de adaptação deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade."